
Postado dia 06/07/26 | 4min. de leitura
Igreja do Divino Espírito Santo: patrimônio de Boipeba
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A história da Igreja do Divino Espírito Santo, em Boipeba, se funde com a própria origem da sociedade boipebana pós-colonização portuguesa, sendo este o monumento mais antigo que se tem conhecimento na ilha.
O templo também se conecta com tensões sociais que explicam como a ilha chegou ao séc. XX isolada e empobrecida, além de permanências culturais que tornam a Festa do Divino Espírito Santo uma das mais tradicionais de toda a Costa do Dendê, movimentando atualmente todas as comunidades da ilha.
Conheça neste artigo um pouco sobre essa história, o que ver e fazer no interior da igreja. Continue conosco!

Igreja do Divino Espírito Santo: um resumo historiográfico
A Ilha de Boipeba era território Tupinambá quando os portugueses invadiram o litoral e tomaram posse dessas terras, subdivididas em Capitanias Hereditárias a partir de 1534. Jorge de Figueiredo Correia, o donatário da Capitania de São Jorge dos Ilhéus, que exerceu seu governo na Metrópole sem nunca pisar no Brasil, doou a sesmaria que abrangia o território insular ao futuro governador-geral Mem de Sá.
O ato que, embora iniciado com um documento de posse em 1537, foi oficializado por meio de escritura pública em 1544.
Contudo, o fator determinante para a colonização sistemática da ilha foi a transferência da chamada Sesmaria das Doze Léguas em 1563: um legado de Mem de Sá à Companhia de Jesus, instituição que atuou na vanguarda da dominação ibérica ao impor o cristianismo aos povos originários.

A partir desse período, os jesuítas estabeleceram sua residência permanente e fundaram o Aldeamento do Espírito Santo, convertendo a catequese dos indígenas em vetor para o controle e a exploração de sua força de trabalho na construção de seus domínios e fazendas.
Frente às violentas guerras movidas pelos Aimorés no continente, Boipeba converteu-se em um refúgio. Colonos forçados a abandonar suas propriedades na terra firme migraram para a ilha, onde passaram a ocupar lotes disponibilizados pelos jesuítas sob o regime de arrendamento.
No início do século XVII, consolidou-se um povoado cuja estrutura socioeconômica se fundamentava na produção agrícola, com absoluto destaque para a farinha de mandioca, amparada na exploração do trabalho escravizado indígena e africano.
Nesse cenário de transição, a Igreja Matriz foi construída por volta de 1610, sendo elevada em 1616 à condição de freguesia sob a invocação do Divino Espírito Santo de Boipeba, por ato do bispo D. Constantino Barradas.

Ao longo do período colonial, o templo não apenas centralizou a catequese, mas operou como o núcleo ideológico de fomento e justificação da sociedade escravocrata, servindo como marco simbólico e jurídico da propriedade privada jesuítica na região.
Ademais, como a Companhia de Jesus monopolizou a instrução formal na colônia, a Igreja do Divino Espírito Santo muito provavelmente centralizou os atos educacionais em Boipeba.
Longe de ser universal, esse letramento operava sob uma lógica excludente e senhorial, chancelando as hierarquias coloniais e aprofundando as desigualdades estruturais geradas pelo escravismo.
Em sua materialidade de pedra, cal e azulejos oitocentistas, a Igreja do Divino Espírito Santo na Velha Boipeba sintetiza as forças contraditórias que moldaram a geopolítica e a cultura do Baixo Sul baiano.
O monumento resistiu ao tempo como o principal testemunho de relevância arquitetônica de uma vila que, embora tenha enfrentado a estagnação econômica e o empobrecimento ao longo dos séculos, preservou no templo a memória viva de sua centralidade histórica e cultural.
Bibliografia
AZEVEDO, Paulo Ormindo David de. IPAC-BA: Inventário de Proteção do Acervo Cultural da Bahia. Salvador: Secretaria da Indústria e Comércio e Turismo. v.2. Monumentos e Sítios do Litoral Sul, 1975-2002. 7v.
BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. O feudo: a Casa da Torre de Garcia d’Ávila: da conquista dos sertões à independência do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
CAMPOS, Silva. Crônica da Capitania de São Jorge dos Ilhéus. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1981.
LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
O que ver na Igreja de Boipeba

A Igreja do Divino Espírito Santo está localizada no ponto mais alto da Praça Santo Antônio, antigo “quadrado” onde os jesuítas fixaram sua residência e iniciaram o povoamento na ilha. Dela, tem-se uma vista panorâmica belíssima do encontro dos rios Piã e Inferno com o mar, da Praia da Boca da Barra e da extremidade sul da Ilha de Tinharé.
Embora seja uma igreja do séc. XVII, a fachada atual é reflexo de alterações realizadas na segunda metade do séc. XIX. Preservam-se originais a porta principal em madeira e sua cercadura de cantaria (pedra), a torre sineira estilo “Espadaña” e típica de pequenas capelas rurais e jesuíticas do séc. XVI e XVII, a sacristia do lado esquerdo e o piso oculto em pedra original, que ainda se encontra abaixo do piso atual.
As três janelas no estilo D. Maria I, posicionadas acima da portada, fazem parte da intervenção realizada no séc. XIX, conforme pode ser visto na inscrição com o ano 1838 acima da janela central, data que marca a grande reforma do templo.

Nessa mesma obra foram substituídos os altares originais por neoclássicos. A igreja apresenta um teto abobadado com pintura representativa do Divino Espírito Santo.
Também vale destacar a presença de uma grade de madeira revestida por azulejos portugueses do séc. XVIII, decorados com cenas bíblicas.
O acervo de Arte Sacra preserva uma pia batismal, algumas imagens históricas e alfaias antigas guardadas em cofre de segurança.
O Memorial do Divino
Recentemente o Memorial do Divino foi inaugurado no interior da igreja, espaço dedicado à preservação de pequena parte da memória da ilha. Nele, encontram-se imagens e objetos de devoção ao Divino Espírito Santo, além de objetos do séc. XX angariados junto à população local, como documentos, fotografias, dentre outros.
Agora que você já tem informações preciosas sobre a Igreja do Divino Espírito Santo, em Boipeba, conheça 15 passeios maravilhosos para realizar na ilha. São oportunidades de conhecer mais profundamente esse lugar encantador e que, certamente, poderão tornar sua viagem muito mais especial!
Por Márcio Vasconcelos de O. Torres
Historiador e viajante - marciotorresbb@gmail.com
