
Postado dia 23/02/26 | 6min. de leitura
Museu do Recôncavo Wanderley Pinho: história, arte e cultura
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Após 25 anos fechado, o Museu Wanderley Pinho foi reaberto para apreciação da rica história do Recôncavo Baiano. O antigo complexo arquitetônico é, em sua própria arquitetura, um presente raro ainda preservado, composto por uma casa grande, uma igreja e uma fábrica onde se produzia açúcar.
Trata-se de um lugar onde muitas memórias estão vivas e em tempos de celebração pela sua reinauguração e exposição de rico acervo, é preciso não esquecer o sofrimento dos escravizados africanos que lá trabalharam por séculos, inclusive tendo erguido os imponentes edifícios que o compõem.
Continue conosco e descubra o Engenho Freguesia, onde está instalado o Museu do Recôncavo Wanderley Pinho.

História do Engenho Freguesia
Os primeiros atos do povoamento português no entorno de “Kirimure”, grande mar interior para os tupinambás que lá viviam, se deu a partir de 1536, quando o donatário da Capitania Hereditária da Baía de Todos os Santos se instalou nas imediações da atual Ladeira da Barra, em Salvador.
Francisco Pereira Coutinho deu início a outorga de sesmarias, trazendo com ele investidores que construíram os primeiros engenhos de açúcar.
Mas o mais importante ato de povoamento ocorreu a partir de 1549, quando o primeiro Governador Geral do Brasil, Tomé de Sousa, desembarcou na missão de construir a Cidade da Bahia, a sede portuguesa na América.

Daí em diante, muitos engenhos foram levantados depois de Tomé de Sousa, sob governos dos portugueses Duarte da Costa e Mem de Sá. Este último empreendeu grandes genocídios no Recôncavo Baiano, dizimando comunidades indígenas inteiras e “limpando” os territórios para fins de produção de cana de açúcar e construção de engenhos.
Ao final do séc. XVI, existiam cerca de 35 engenhos no Recôncavo Baiano, sendo um deles o Engenho Freguesia. Sobre ele Gabriel Soares de Sousa em seu “Tratado descritivo do Brasil em 1587” deixou o seguinte relato:
“Saindo pela boca de Matoim fora, virando sobre a mão direita, vai a terra fabricada com fazendas e canaviais dali a meia légua, onde está outro engenho de Sebastião de Faria, de duas moendas que lavram com bois, o qual tem grandes edifícios assim de Engenho como de casas de purgar e de vivenda e de outras oficinas e tem uma formosa Igreja de Nossa Senhora da Piedade, que é Freguesia deste limite; a qual fazenda mostra tanto aparato vista do mar que parece uma vila”.
Tal descrição já mostra o poder e destaque do Engenho Freguesia sobre todos os outros que existiam na Baía de Todos os Santos nesse tempo. Sebastião Faria era filho do sesmeiro Sebastião Álvares, que segundo o historiador Jair Cardoso em seu livro “Candeias, histórias de Fé e Trabalho”, foi quem recebeu a primeira sesmaria da cidade de Candeias, em região conhecida no passado como Matoim.

Um fato curioso sobre Sebastião Faria é que sua sogra, Ana Roiz, era cristã nova e foi mártir do Tribunal do Santo Ofício. A sentença foi pregada na porta da Igreja de Matoim com sua foto, sendo a condenada morta em prisão de Lisboa e seu corpo queimado posteriormente.
No séc. XIX, o Engenho Freguesia foi adquirido pelo barão Antônio Bernardino da Rocha Pita e Argolo, que logo se tornaria Conde de Passé. Tinha nesse período 163 escravizados de acordo com o censo de 1856. Após a abolição formal da escravidão em 1888, o engenho entrou em decadência, assim como toda a Freguesia de Nossa Senhora da Piedade de Matoim.
A filha e herdeira do Conde de Passé, Dona Antônia Tereza de Sá Pitta e Argollo, casou-se com João Maurício Wanderley, o Barão de Cotegipe. Após a morte do Conde de Passé, o Barão de Cotegipe e sua esposa receberam o Engenho Freguesia como herança.
A propriedade foi herdada posteriormente pelo neto do Barão de Cotegipe, o historiador José Wanderley de Araújo Pinho (1880-1967), que deixou um grande legado bibliográfico sobre o Recôncavo Baiano, em especial o livro “História de um engenho do recôncavo: Matoim, Novo Caboto, Freguesia: 1552-1944”, onde descreve toda a trajetória do Engenho Freguesia.
O casarão do engenho foi tombado e nele Wanderley Pinho idealizou o museu que leva seu nome, sendo o mesmo inaugurado 4 anos após sua morte, em 1971. É importante registrar que Wanderley Pinho era descendente de senhores, políticos e pessoas da classe dominante baiana.
Assim, também foi político, ficando registrado na história sua pouca afeição aos despossuídos, quando no período em que foi prefeito de Salvador (1947-1951) expulsou Irmã Dulce da Igreja do Bonfim, local onde a religiosa atendia doentes pobres.
Como chegar ao Museu Wanderley Pinho

O Museu Wanderley Pinho está a 41,5 quilômetros do Aeroporto de Salvador e pode ser acessado em carro próprio ou alugado, ou mesmo utilizando táxi, carro de aplicativo, ou contratando o serviço de transfer.
Neste último, um automóvel novo e climatizado busca o turista em seu hotel e o leva diretamente para o museu.
Seja qual for seu transporte, ele deverá percorrer as rodovias BA-526 e BR-324 sentido Candeias, e entrar à esquerda para o museu antes de chegar ao Caboto.
A requalificação e o que ver no Museu do Recôncavo
Reinaugurado no dia 08 de dezembro de 2025, o Museu do Recôncavo Wanderley Pinho foi completamente restaurado, apresentando exposições multimídia e iluminação cênica.

Porém, o mais importante é a ressignificação do complexo histórico, antes local de exploração e sofrimento, e atualmente valorizando histórias silenciadas e levando a reflexão crítica sobre seu passado escravocrata.
A obra de requalificação contou com um investimento de 42 milhões de reais de recursos públicos e incluiu o restauro dos edifícios históricos, a urbanização do entorno e a construção de um cais para acesso marítimo. Também foram pavimentados 2,18 quilômetros de estradas, melhorando a ligação entre a comunidade do Caboto e o museu.
O novo conceito do Museu Wanderley Pinho destaca narrativas negras e indígenas e atualmente oferece a exposição “Encruzilhadas” de forma temporária, reunindo obras de arte de 40 artistas brasileiros e africanos como Mestre Didi, Pierre Verger, Alberto Pitta e Rubem Valentim.
Quanto ao acervo permanente, são 260 peças, incluindo um importante conjunto de arte sacra dos séculos XVII, XVIII e XIX, que ajuda a compreender diferentes camadas da história e da cultura baiana.
Ao chegar no museu, é importante realizar visita guiada por monitores treinados, para que se tenha um entendimento maior sobre a complexidade que o envolve. Há também a presença de um audioguia em libras, além de banheiros acessíveis.
O percurso, que tem duração de 2 horas, inclui a Capela de Nossa Senhora da Conceição da Freguesia (antiga Igreja de N. Sra. da Piedade), anexa ao casarão e parte crucial para o entendimento histórico sobre o Engenho Freguesia.
Porém, o museu também contempla outros pontos importantes de visitação, como os núcleos expositivos:
Histórico: sobre a linha do tempo do Engenho Freguesia;
Povos Escravizados: com manuscritos de Castro Alves, outros documentos históricos e totens sobre o tráfico de escravizados;
Povos Originários: com fotografias, documentário e grafismo do artista Thiago Tupinambá;
Doméstico: que apresenta mobiliário, quartos e salas em estilo colonial, além de uma cozinha sem janelas onde escravizadas trabalhavam;
Memória: com objetos de suplício e tortura expostos na Sala do Silêncio.
Mais informações sobre o Museu do Recôncavo
Endereço do Museu Wanderley Pinho: Via Matoim, Enseada de Caboto, s/n, Candeias;
Dias e horário de funcionamento: de quarta-feira a domingo, das 10:00 às 17:00;
Ingresso: entrada gratuita.
O que fazer próximo ao Museu Wanderley Pinho

O Museu do Recôncavo está a apenas 1,5 quilômetros de distância da orla de Caboto, distrito de Candeias. Lá, é possível desfrutar de um lindo cenário da Baía de Todos os Santos, que assim como a paisagem do museu, também destaca a Ilha de Maré posicionada bem de frente.
Em Caboto, é possível conhecer a linda Praia da Bica, degustar as maravilhas da gastronomia baiana nos excelentes restaurantes Moqueca de Ouro ou São Roque, aproveitar o povoado pacato e repleto de cultura original, e por fim, se encantar com o lindo pôr do sol em qualquer lugar da orla.
Com um pouco mais de tempo, vale a pena visitar a cidade de Candeias, especialmente para conhecer a linda Igreja Matriz de Nossa Senhora das Candeias, datada do séc. XVIII. Ela apresenta relíquias da arte sacra e é de grande importância para o entendimento histórico da região.

Agora que você sabe mais sobre o belíssimo Museu Wanderley Pinho, conheça os 9 principais destinos da Baía de Todos os Santos e explore ilhas paradisíacas e cenários ricos em história e cultura que transformarão sua viagem em uma experiência ainda mais completa e inesquecível.
Bibliografia
FERREIRA JÚNIOR, Jair Messias. Irmã Dulce: vida, milagres, morte, resumo. Mundo Educação. Disponível em: https://mundoeducacao.uol.com.br/biografias/irma-dulce.htm
OLIVEIRA, Maria Lêda. A História do Brazil de Frei Vicente do Salvador: história e política no Império Português do Século XVII. São Paulo: Odebrecht, 2008.
SANTOS, Jair Cardoso dos. Candeias, Histórias de Fé e Trabalho. Salvador: Quarteto, 2020.
SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. São Paulo: Hedra, 2010.
Por Márcio Vasconcelos de O. Torres
Historiador e viajante - marciotorresbb@gmail.com


















