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Moinho de Vento das Mercês: ruínas históricas de Mar Grande

Postado dia 15/10/26 | 6min. de leitura

Moinho de Vento das Mercês: ruínas históricas de Mar Grande

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O Moinho de Vento das Mercês em Mar Grande é uma daquelas surpresas incríveis que a gente encontra quando decide explorar a Bahia além do roteiro turístico mais óbvio e tradicional. 

Quando pensamos no litoral baiano e em toda a sua rica história, logo nos vêm à cabeça as praias paradisíacas de águas quentes, as imponentes igrejas coloniais banhadas a ouro e as famosas histórias dos velhos engenhos de açúcar, não é mesmo?

Ruínas do Moinho de Vento das Mercês
Ruínas do Moinho de Vento das Mercês - Reprodução / Foto antiga do Inventário do IPAC recuperada com uso de Inteligência Artificial

Afinal, a cana-de-açúcar foi a grande protagonista da economia baiana no passado. Mas esse moinho traz uma narrativa totalmente diferente, algo que foge do comum e nos mostra um pedacinho da Europa antiga escondido na Ilha de Itaparica.

Continue conosco e descubra este monumento histórico incrível, com informações relevantes sobre sua história, como chegar, o que ver em seu interior e o que fazer na região onde está inserido!

História do Moinho de Vento das Mercês: da produção à ruína monumental

A história do Moinho das Mercês, em Itaparica, pode ser entendida observando o choque direto entre o seu passado de intensa produção e o abandono ao longo dos séculos. 

Ruínas do Moinho de Vento das Mercês
Foto original das ruínas do Moinho de Vento das Mercês - Reprodução / Inventário do IPAC

Uma inscrição com o ano de 1606, que ficava acima da porta de entrada até alguns anos atrás, indica a data de sua construção. Ela também confirma que se plantava trigo e arroz na ilha no início do século XVII, sendo essa produção processada no moinho em questão. 

Vale destacar que este monumento é o único moinho de vento de que se tem notícia em toda a Bahia.

Embora fosse uma raridade no território baiano, no Rio de Janeiro já existiam moinhos parecidos desde 1576, que foram até desenhados por artistas como Debret e Chamberlain e possuíam plantas idênticas ao exemplar da Ilha de Itaparica. 

O funcionamento do moinho baiano continuou ativo no século seguinte, sendo citado pelo vigário Cristóvão dos Santos em 1757, como de grande relevância para a Freguesia de Santa Vera Cruz.

A perda de sua utilidade e a degradação consequente se deu, provavelmente, quando o plantio do trigo parou de valer a pena na ilha, fazendo com que o moinho perdesse sua função. 

Fotos originais das ruínas do Moinho de Vento Inventário do IPAC
Fotos originais das ruínas do Moinho de Vento das Mercês - Reprodução / Inventário do IPAC

O maquinário feito de madeira, como o antigo teto giratório, apodreceu sem deixar vestígios. Além disso, as pedras de moer nunca foram achadas no local e não há qualquer registro de que a estrutura tenha passado por uma reforma ou restauração em toda a sua história.

Características arquitetônicas e a experiência do visitante

Visitar essas ruínas hoje em dia é fazer uma verdadeira viagem no tempo, é ter a chance de entender como as pessoas que viviam ali antigamente usavam a inteligência e a força da natureza para girar a economia e produzir comida muitos séculos atrás. 

O Moinho das Mercês tem um estilo de construção claramente de origem feudal. Ele é um moinho de vento bem parecido com os que existem na região do Mar Mediterrâneo, como no sul de Portugal e também nas ilhas do Mar Egeu, na Grécia. A estrutura principal foi feita usando uma mistura muito forte de pedra e cal, o que formou uma torre redonda e rígida.

Ruínas moinho marcês
Fotos das ruínas do Moinho de Vento das Mercês - Reprodução / Fotos antigas do Inventário do IPAC recuperadas com uso de Inteligência Artificial

Confira o que explorar ao adentrar nas ruínas:

  • Tamanho de cair o queixo: a torre redonda é bem grande, medindo 6,80 metros de largura (diâmetro) e chegando a 5,20 metros de altura. As paredes de pedra são muito grossas, alcançando 1,30 metros de espessura na parte mais baixa, perto do chão.

  • Portas e janelas: o prédio só tem uma porta de entrada, que fica no andar de baixo. No andar de cima, onde antes funcionava uma espécie de sobrado, existem três janelinhas, e uma delas chama atenção por ser bem mais larga na parte de dentro. O contorno dessas portas e janelas, e também os degraus da escada do lado de dentro, foram feitos com um tipo de pedra chamada arenito.

  • O lado de dentro e a escada: ao entrar no moinho, você vai ver que o piso de madeira não existe mais, sobrando apenas umas marcas na parede a 3,40 metros de altura. A grande estrela do lado de dentro é a escada de pedra em formato de caracol, que tem 15 degraus e levava as pessoas para o andar de cima.

  • O que sobrou do topo: olhando para a parte mais alta da torre redonda, dá para ver um anel de pedras pesadas que antigamente eram presas umas nas outras por grampos de ferro. Esse anel de pedra ainda tem um trilho esculpido que servia para guiar as rodinhas do teto de madeira que girava lá em cima. Hoje em dia, algumas dessas pedras pesadas estão jogadas no chão, em volta do moinho.

Como funcionava o Moinho de Vento de Itaparica 

O que não se consegue ver atualmente, mas que é super importante para entender como o moinho era gigante, é o antigo "tejadilho". No passado, a torre de pedra era coberta por um teto de madeira em formato de cone, e a grande sacada é que esse teto girava! Em cima dessa estrutura de madeira ficava um eixo deitado, e dele saíam as varas que seguravam as quatro velas do moinho.

Planta do Moinho de Vento das Marcês Inventário IPAC
Planta do Moinho de Vento das Marcês - Reprodução / Inventário IPAC

Para funcionar direito, a pessoa que trabalhava lá precisava apontar as velas bem na direção do vento. Ele fazia o teto girar puxando uma corda de dentro do moinho, usando um rolo preso a uns suportes de pedra nas paredes, que o pessoal chamava de "andorinhos".

A parte de dentro desse sobrado de madeira guardava um equipamento super complexo que aumentava e passava a força das velas, girando para um eixo vertical. Tudo isso funcionava com engrenagens de madeira que a gente conhece pelos livros antigos.

A principal se chamava "endrosga", que era uma roda de 1,76 metros e tinha 32 ou 36 dentes, e ela se ligava a uma peça menor chamada "carreto", que tinha seis ou sete pinos chamados "fuseis". Esse grande eixo vertical descia até o chão do sobrado para fazer girar as pedras pesadas que esmagavam e trituravam o trigo.

Bibliografia

AZEVEDO, Paulo Ormindo David de. A propósito de moinhos de vento. In: Arquitetura, revista do IAB, nº 43. Rio de Janeiro, 1966.

AZEVEDO, Paulo Ormindo David de. IPAC-BA: Inventário de Proteção do Acervo Cultural da Bahia. Salvador: Secretaria da Indústria e Comércio e Turismo. v.2. Monumentos e Sítios do Recôncavo, 1975-2002. 7v.

IBGE. Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. vol. XX. Rio de Janeiro, 1958.

OSÓRIO, Ubaldo. A Ilha de Itaparica: História e Tradição. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1979.

Como chegar às ruínas do Moinho de Vento das Mercês

A geografia escolhida para a implantação do Moinho das Mercês não foi acidental, mas sim um requisito técnico indispensável para o seu funcionamento. 

O monumento está situado no município de Vera Cruz, mais especificamente no distrito de Mar Grande. A localização exata encontra-se no trecho conhecido como Mercês, posicionado entre as ruínas da Capela de Santo Antônio dos Velasquez e o bairro de Jaburu.

Atualmente, o terreno onde fica o moinho é propriedade da Companhia de Jesus e local onde funciona a Casa de Retiro São José, administrada pelo Colégio Antônio Vieira. 

Para chegar até ele, primeiro é necessária a autorização da instituição. Uma vez concedida, basta acessar o topo de uma colina situada a cerca de quatrocentos metros da praia. 

Esta elevação estratégica permitia que as velas do moinho capturassem o sopro constante da viração marítima. Além do valor histórico, a visitação é recompensada pela vista panorâmica da Baía de Todos os Santos e do Recôncavo Baiano.

O que fazer no entorno do Moinho de Vento das Mercês

A Ilha de Itaparica esteve presente desde os primeiros atos da colonização portuguesa no Brasil, tendo sido observada já no dia 1º de novembro de 1501, quando Gonçalo Coelho adentrou à grande baía dos tupinambás de nome Kirimurê (“grande mar interior” na língua tupi), e a rebatizou como Baía de Todos os Santos.

Ruínas da Capela de Santo Antônio dos Velasquez Mar Grande
Ruínas da Capela de Santo Antônio dos Velasquez, em Mar Grande

Por isso, esta porção insular baiana é repleta de monumentos históricos extraordinários, além de oferecer praias belíssimas. Bem pertinho do Moinho de Vento das Mercês, estão as ruínas da Capela de Santo Antônio dos Velasquez, magnificamente posicionada em frente ao mar cristalino e repleto de piscinas naturais de Mar Grande.

A cerca de 4 quilômetros está a linda Praia da Penha que, além de proporcionar paisagens paradisíacas e um mar calmo e cristalino, é o palco de três monumentos históricos importantes: a Igreja de Nossa Senhora da Penha e um belo casarão colonial do século XIX, que estão lado a lado, e a ruína do Forno de Cal, uma antiga “caieira” construída em 1549 para produção de cal utilizada na construção dos primeiros edifícios de Salvador.

Agora que você já conhece o extraordinário Moinho de Vento das Mercês em Mar Grande, conheça também outras 5 ruínas igualmente relevantes da Ilha de Itaparica e sua localização, para que seu passeio seja ainda mais rico em conhecimento histórico!


Por Márcio Vasconcelos de O. Torres

Historiador e viajante - marciotorresbb@gmail.com


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