
Postado dia 26/07/26 | 8min. de leitura
Capoeira na Bahia: origem, história e tradição cultural
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A capoeira da Bahia tem algo de místico e uma boa roda encanta completamente quem assiste, em que os movimentos ágeis, acrobáticos e rápidos dos capoeiristas parecem passar diante dos olhos como se fossem em câmera lenta.
Seus cânticos, a ginga e a malícia dos movimentos fazem parte de um ritmo ancestral que virou jogo de resistência à opressão da escravidão e aos preconceitos sociais consequentes dela.

A capoeira é arte, é dança, é luta, é ginga, é malícia, é defesa, é resistência. A capoeira é pura magia e, por tudo isso, é uma das principais atrações turísticas da Bahia, sendo procurada por muitos que estão passeando em todo o estado.
Continue conosco e conheça um pouco sobre sua origem histórica e importância cultural para o Brasil!
História da capoeira: origem na contradição da sociedade colonial
A história da capoeira no Brasil está intrinsecamente ligada à Bahia, um dos principais redutos onde foi germinada e ganhou os contornos que conhecemos hoje.
Ela não pode ser compreendida apenas pelo folclore ou narrativas lineares que não ilustram a realidade de uma sociedade escravocrata, perversa e extremamente desigual.

Esse é o seu berço, onde eclodiram choques sociais de duas forças contraditórias: a opressão do sistema escravocrata versus a necessidade vital de resistência física e cultural do negro escravizado.
A essência da capoeira é produto dessa contradição, desenvolvendo-se como uma luta marcial disfarçada de dança, uma brincadeira ou ginga de falso bêbado que ocultava seus golpes letais.
Na Bahia, esse fenômeno transcendeu a mera defesa pessoal, tornando-se uma filosofia complexa e capaz de agregar cada vez mais discípulos e mestres. Uma verdadeira sociedade mundial baseada nos saberes de matriz africana e sua capacidade de resiliência frente aos desafios da escravidão e tudo o que veio depois dela.
Origem e resistência: o corpo é uma arma
A origem exata da capoeira é alvo de debates historiográficos, mas há consenso sobre sua matriz centro-africana (banto), influenciada por rituais como o N'golo ou Engolo (dança da zebra) de Angola.
Ao chegarem na Bahia, contingentes populacionais de diferentes etnias do tronco linguístico banto encontraram na roda de capoeira um espaço de fusão cultural.

Durante o período colonial e imperial, tudo era negado ao negro escravizado, incluindo a sua própria constituição humana e espiritual. A ele se impunha todo tipo de sofrimento, desde jornadas exaustivas de trabalho forçado e todo tipo de torturas físicas e mentais. Em geral, não tinham bens materiais, tampouco faziam uso de armas de fogo.
Sobreviver a tudo era a única alternativa e, por isso, forjou seu corpo como o instrumento de ataque, defesa e expressão. A ginga, movimento base da capoeira, é a sua alegoria máxima, pois quando o negro estava em movimento, não era alvo fixo, enganando o feitor e o sistema opressor. Muitas vezes, disfarçado de um bêbado cambaleante que não oferecia perigo, o capoeira impunha sua ginga e surpreendia o inimigo.
A República, o preconceito e o Código Penal de 1890

Com a Abolição da Escravatura em 1888 e a Proclamação da República em 1889, o negro liberto foi jogado à própria sorte em uma sociedade racista que lhe negou qualquer direito social e lhe impôs uma vida marginalizada. Assim, formaram-se as "maltas" de capoeiristas, que passaram a dominar as ruas, provocando pânico na classe dominante branca.
Era a sua forma de autodefesa e sobrevivência à histórica opressão da escravidão, que nesse período se configurava como uma pseudo-liberdade imposta por uma sociedade cujo legado racista ainda se perpetua nos tempos atuais.
Logo o Estado criou o Código Penal da República de 1890, dedicando o Capítulo XIII -- "Dos vadios e capoeiras”. O Artigo 402 assim dizia: "Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação Capoeiragem; andar em carreiras, com armas ou instrumentos capazes de produzir lesão corporal, provocando tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo rempor de algum mal. Pena de prisão celular de dois a seis meses."
A capoeira virou sinônimo de vadiagem e a juventude negra das cidades foi reprimida por ações policiais violentas. Para escapar de tamanha perseguição, muitos capoeiras utilizaram seus laços com o Candomblé como defesa, adotando toques que alertavam a chegada da polícia e lhes davam tempo suficiente para se refugiarem nos terreiros.
Bimba, Pastinha e a transição para a "Cultura Nacional"
A virada da capoeira baiana na história aconteceu entre as décadas de 1930 e 1940.

E o grande trunfo foi Getúlio Vargas, que populista como era, buscava uma identidade nacional mestiça para unificar o país e se garantir no poder. Iniciou-se a partir de então um processo de descriminalização de toda a sorte de manifestações afro-brasileiras.
Nesse “pano de fundo”, surgem em Salvador os geniais Mestre Bimba e Mestre Pastinha, os maiores difusores da cultura da capoeira no Brasil.
O Mestre Bimba
Manoel dos Reis Machado, ou simplesmente Mestre Bimba, foi o criador da Capoeira Regional, estilo que incorporou movimentos de diversas artes marciais. Antenado na marginalização da capoeira, ele desenvolveu um rigoroso método de ensino, no qual exigia que seus alunos fossem estudantes do ensino formal ou trabalhadores empregados.
Em 1937, o Mestre Bimba conseguiu o registro oficial da sua academia, um símbolo que marcou o fim da capoeira como atividade ilegal. Posteriormente, levou a capoeira para outras academias e universidades.
O Mestre Pastinha

Vicente Ferreira era o nome de batismo do Mestre Pastinha, o responsável por organizar, sistematizar e difundir a Capoeira Angola. Receando que a capoeira perdesse suas raízes filosóficas em função das inovações do Mestre Bimba, ele criou o Centro Esportivo de Capoeira Angola em 1941. Seu método enfatizava a malícia, a ginga de chão, a ancestralidade, a música e a tradição africana.
Apesar da distinção entre ambos, os dois mestres foram responsáveis por livrar a capoeira do estigma marginal e inseri-la como panteão da identidade e cultura baiana. Logo, a classe dominante reconheceu o seu valor e passou a consumir capoeira em vez de reprimi-la.
A capoeira é o coração da baianidade
Atualmente, a capoeira é considerada Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, sendo impossível não associá-la diretamente à imagem e à cultura baiana. Uma arte, luta e dança praticada no mundo inteiro por meio da exportação de mestres baianos e base fundamental para o turismo no estado.
Capoeira no Pelourinho
Assim como a capoeira é uma expressão genuína da baianidade, também o é em relação ao Pelourinho, já que foi neste bairro de Salvador que boa parte da sua história aconteceu. Trata-se do epicentro geográfico da resistência negra e da consolidação da capoeira em Salvador.

Por isso, enumeramos neste artigo alguns fatos históricos sobre a capoeira ocorridos no Pelourinho. Confira!
1. Pelourinho: local de punição e resistência
“Pelourinho" foi o nome dado a uma coluna de pedra ou madeira erguida em praça pública, onde pessoas escravizadas eram açoitadas, torturadas e expostas publicamente durante os períodos colonial e imperial.
O famoso bairro soteropolitano tem este nome, pois havia um tronco (pelourinho) em seu largo central, que por isso ficou conhecido como Largo do Pelourinho.
Essa região de Salvador sempre concentrou uma maioria negra em função da escravidão, onde a capoeira era praticada em becos, ruas, ladeiras e praças, muitas vezes disfarçada de brincadeira para enganar a polícia.
2. A Criminalização e o Esquadrão de Pedrito (Início do Século XX)

Com a criminalização da capoeira a partir do Código Penal de 1890, a região do Pelourinho passou a ser frequentada por capoeiristas temidos.
Em 1920, um chefe de polícia de nome Pedro de Azevedo, o “Pedrito”, montou uma força-tarefa para combater os capoeiras e suas ações se baseavam em invadir terreiros de Candomblé, surpreender rodas de capoeira no centro histórico, prender os praticantes e confiscar berimbaus e atabaques.
Foi nesse período que surgiu o “toque de cavalaria”, um aviso sonoro produzido por berimbaus e atabaques que avisava aos capoeiras quando a força de Pedrito estava chegando.
3. Mestre Bimba e as rodas da Baixa dos Sapateiros
Antes de criar a Capoeira Regional, o Mestre Bimba foi um hábil praticante da Capoeira Angola e costumava frequentar as rodas da Baixa dos Sapateiros e do Terreiro de Jesus, onde vivenciou ações brutais da polícia e a marginalização da capoeira. Foi nessas ruas que entendeu a necessidade de sistematizar e legitimar a arte.
Sua primeira academia foi no bairro do Engenho Velho de Brotas, mas foi o centro histórico de Salvador que fundamentou sua luta.
4. Mestre Pastinha e o Casarão 19 no Largo do Pelourinho
Se Bimba modernizou a capoeira, levando-a para outras áreas e academias, o Mestre Pastinha fincou as raízes da tradição no coração do Pelourinho, especialmente quando instalou seu Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA) no Casarão nº 19, localizado no Largo do Pelourinho.

A farda oficial dessa academia eram camisas amarelas e calças pretas, as cores do Ypiranga, o seu time do coração.
Seus discípulos, João Pequeno e João Grande, o auxiliaram a formalizar o método da Capoeira Angola e o Casarão 19 se tornou um santuário mundial da cultura afro-brasileira. Posteriormente, o local foi frequentado por ícones baianos como Jorge Amado e Carybé, mas também por capoeiristas do mundo inteiro.
5. O declínio e a expulsão de Pastinha
Um dos capítulos mais tristes da história da capoeira ocorreu em 1971, quando o poder público despejou o Mestre Pastinha do Casarão 19 com justificativa de reformá-lo. Também foi prometido o seu retorno após a obra, mas o que de fato aconteceu foram os pertences de um mestre idoso e cego jogados à rua.
O retorno não aconteceu e a perda do seu espaço no Pelourinho foi o estopim para o declínio físico e emocional de Pastinha, que morreu em 1981 na miséria.
Apesar desse episódio trágico, a presença institucionalizada de Bimba e a resistência cultural de Pastinha no Centro Histórico reverteram a lógica da perseguição inicial, transformando definitivamente o Pelourinho no endereço mundial e sagrado da capoeira.
Atualmente, o Forte da Capoeira, como ficou conhecido o Forte de Santo Antônio Além do Carmo, se tornou o Centro de Referência, Estudo, Pesquisa e Memória da Capoeira. Vale ressaltar a presença histórica e marcante do Mestre João Pequeno neste forte, onde estabeleceu sua academia e deu continuidade à obra do Mestre Pastinha.
Agora que você já sabe muito mais sobre a capoeira da Bahia, conheça profundamente o Pelourinho, para que sua viagem a Salvador seja ainda mais rica e prazerosa.
Bibliografia
SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. A prisão dos ébrios, capoeiras e vagabundos no início da Era Republicana. Rio de Janeiro: Topoi, 2004.
SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A negregada instituição: os capoeiras na Corte imperial, 1850-1890. Rio de Janeiro: Access, 1999.
SODRÉ, Muniz. O terreiro e a cidade: a forma social negro-brasileira. Petrópolis: Vozes, 1988.
SODRÉ, Muniz. Mestre Bimba: corpo de mandinga. Rio de Janeiro: Manati, 2002.
CAMPOS, Hélio. Capoeira na Universidade: uma trajetória de resistência. Salvador: EDUFBA, 2001.
Por Márcio Vasconcelos de O. Torres
Historiador e viajante - marciotorresbb@gmail.com
