
Postado dia 19/02/26 | 5min. de leitura
Igreja Nossa Senhora da Penha: patrimônio de Itaparica
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A Igreja de Nossa Senhora da Penha, na Ilha de Itaparica, é um daqueles monumentos que costumam ser desenhados em contracapas de cadernos escolares, compondo uma paisagem tão charmosa que poderia servir como papel de parede em qualquer tela de computador ou TV. Além de antiga, exótica e misteriosa, ela faz parte de um contexto que salta aos olhos de tanta beleza!
Neste artigo, você vai conhecer sua origem, localização completamente inserida nas águas da Baía de Todos os Santos, como chegar, o que fazer por lá e outras atrações nos arredores.
Continue conosco!

Origem da Igreja de Nossa Senhora da Penha
Todo o Recôncavo Baiano, e aqui inclui-se a Ilha de Itaparica, foi praticamente forjado pela plantation, tendo como célula mater os engenhos de açúcar.
A organização social estratificada que o fundamentava tinha o senhor de engenho no topo da pirâmide e o escravismo africano em sua base. Assim, os territórios outrora indígenas, pouco a pouco foram invadidos e conquistados para o funcionamento dessa nova ordem social.

Além disso, a Igreja exercia um papel central ao regular e legitimar a sociedade escravocrata. Para tanto, era necessário que a mesma também recebesse seu quinhão, até mesmo em razão da catequese realizada por missionários de diversas ordens católicas, uma ação de extrema relevância para a formação da nova sociedade colonial.
Entre essas ordens, a mais influente foi a Companhia de Jesus, reconhecida como a principal força catequizadora da colonização.
Assim, quando as fazendas oriundas da distribuição de sesmarias não faziam parte da plantation, certamente tinham como proprietários os religiosos e suas missões indígenas, cujas terras eram recebidas como doação. Porém, vale ressaltar que há muitos registros em que os jesuítas possuíam engenhos de açúcar, abrigando em suas propriedades grandes escravarias.
A fazenda de Nossa Senhora da Penha não tinha engenho de açúcar e, no ano de 1689, pertencia ao padre José de Andrade, que por sua vez a doou ao Colégio dos Jesuítas da Bahia no dia 22 de julho do mesmo ano. Tal doação estava condicionada a encargos pios, ou seja, à obrigação com fins de caridade, assistência ou educação.
De acordo com Paulo Ormindo Azevedo, a partir de então, “[...] o Reitor do Colégio Jesuíta da Bahia se obrigava a construir a nova capela de N. sra. da Penha, para a qual já havia pedra de cantaria”.

Ou seja, muito provavelmente já havia no local uma capela primitiva construída em taipa e coberta de palha, utilizada para a catequese dos tupinambás que ali viviam.
A nova Igreja de Nossa Senhora da Penha foi então construída em alvenaria com pedra de cantaria, técnica portuguesa de construção civil onde as pedras eram talhadas, esquadrejadas e trabalhadas para formar paredes geométricas e perfeitas.
Em 1757, dois anos antes da expulsão dos jesuítas do Brasil, a Fazenda de Nossa Senhora da Penha era grande e possuidora de muitos escravizados, tudo isso vinculado à capela e à Companhia de Jesus. Com a expulsão dos religiosos, a propriedade se tornou posse da Coroa.
Características da Igreja de N. Sra. da Penha
A igreja é do final do séc. XVII e mantém características arquitetônicas das primeiras construções da Companhia de Jesus no Brasil, não havendo registros de alterações na sua originalidade.

Destaque para um grande óculo circular entre duas janelas da sua fachada e para diversas seteiras instaladas no interior, que são fendas estreitas abertas nas paredes com intuito de reprimir eventuais invasões.
A Igreja da Penha é um templo fortificado e construído com dupla finalidade: a de defesa e a religiosa, algo de certa forma raro no Brasil.
Atualmente, tanto a igreja como o casarão ao seu lado são parte de uma propriedade privada, sendo necessária uma autorização para conhecer o interior dos mesmos.
A igreja raramente está aberta e não costuma realizar missas regulares, apenas celebrações em datas festivas. Ela é vinculada à comunidade eclesial da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, em Vera Cruz.
Localização e como chegar na Igreja de N. Sra. da Penha
A igreja fica em Vera Cruz e faz parte do Condomínio Nossa Senhora da Penha - Itaparica.
Para chegar até lá e tomando como referência Salvador, é preciso primeiro atravessar a Baía de Todos os Santos, seja pelo ferry boat até Bom Despacho, ou pela lancha que leva até Mar Grande. Do Terminal Marítimo de Mar Grande até a Igreja da Penha são apenas 2,2 quilômetros, percurso que pode ser realizado de carro ou caminhando pela praia.
A Praia da Penha

Quando falei na introdução deste artigo que a Igreja Nossa Senhora da Penha em Vera Cruz é parte de uma paisagem que salta aos olhos de tanta beleza, estava me referindo especialmente ao conjunto paisagístico do local.
A igrejinha fica de frente para o mar, que por sua vez é cercado por uma grande barreira de corais onde se formam infinitas piscinas naturais de águas cristalinas na maré baixa.

Ao seu lado está um casarão do séc. XIX, a linda foz do rio da Penha e o monumento histórico mais antigo da Ilha de Itaparica: a ruína do Forno de Cal, uma antiga “caieira” construída em 1549, cuja produção de cal à base de mariscos serviu para a construção da cidade de Salvador.
A Praia da Penha é um lugar tranquilo, excelente para famílias, mas que não proporciona muitas opções de barracas de praia. Apenas o Restaurante Pai Orlando, que atende moradores locais e turistas, oferecendo ótima gastronomia e bebidas geladinhas.
Uma dica é curtir a praia na maré baixa, que é o momento em que os corais ficam de fora e a praia exibe suas piscinas naturais.
Agora que você descobriu a linda Igreja de Nossa Senhora da Penha, conheça também Mar Grande, local onde chegam e saem as lanchas que realizam a travessia da Baía de Todos os Santos, mas também um destino com muitas belezas, monumentos históricos e ótimas opções de lazer.
Bibliografia
AZEVEDO, Paulo Ormindo David de. IPAC-BA: Inventário de Proteção do Acervo Cultural da Bahia. Salvador: Secretaria da Indústria e Comércio e Turismo. v.2. Monumentos e Sítios do Recôncavo, 1975-2002. 7v.
BONFIM, Alexandre Gonçalves. As Capitanias de Itaparica e Tamarandiva e do Paraguaçu: administração, direito de propriedade e poder na América portuguesa (c1530-c1630). Dissertação de Mestrado em História. Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2016.
LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
OSÓRIO, Ubaldo. A Ilha de Itaparica: História e Tradição. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1979.
Por Márcio Vasconcelos de O. Torres
Historiador e viajante - marciotorresbb@gmail.com
