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Tenente Botas: história e lendas em Itaparica

Postado dia 01/08/26 | 4min. de leitura

Tenente Botas: história e lendas em Itaparica

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O Tenente Botas de Itaparica, ou melhor, o eterno João das Botas, cujo nome de batismo era João Francisco de Oliveira, é um ícone lendário da historicidade itaparicana e baiana. 

O icônico herói da Guerra da Independência do Brasil na Bahia era português de nascimento, mas lutou com bravura para livrar o Brasil e os baianos do jugo colonial português.

Conheça mais sobre sua história e as lendas que envolvem seu nome, tão marcante que acabou se tornando referência na ilha ao dar o nome a uma ponte, uma praça e ao sobrado residencial mais antigo da Ilha de Itaparica.

Continue conosco!

O Tenente João das Botas
O Tenente João das Botas - Reprodução / Pintura de autor desconhecido

Quem foi João das Botas: contexto histórico

O Tenente Botas era um dos mais experientes marinheiros em atividade, quando o general português Madeira de Melo desembarcou em Salvador no mês de fevereiro de 1822. Ele veio com o propósito de assumir o controle militar da província da Bahia e garantir que Portugal continuasse no controle colonial. 

Havia grande efervescência local, especialmente entre a classe dominante senhorial, que estava insatisfeita perante a submissão à Coroa e todas as taxas e impostos a ela pagos. Assim, havia um crescente movimento pró-independência na região que deveria ser sufocado por Madeira de Melo.

Após batalhas urbanas em Salvador durante os dias 19 e 20 de fevereiro de 1822, Madeira de Melo tomou posse da cidade, ampliando a crise e impelindo os baianos para o Recôncavo e Ilha de Itaparica. 

Tenente João das Botas batalha naval Independência da Bahia
O Tenente João das Botas e sua épica estratégia militar - Ilustração criada com uso de Inteligência Artificial

Foi o início de um cerco aos portugueses que bloqueou a entrada de mantimentos na cidade com o propósito de enfraquecê-los pela fome. Por isso, entre 1822 e 1823, a Baía de Todos os Santos se tornou palco de grandes batalhas navais, com Madeira de Melo e sua potente esquadra tentando furar o cerco pelo mar, e as forças baianas os repelindo nas águas e em lugares como Itaparica.

É aí que entra em cena o nosso herói, João das Botas, que assumiu a missão de liderar as defesas navais dos baianos. Defesas essas que, diferente dos portugueses, eram compostas por embarcações de cabotagem adaptadas para guerra, a exemplo de saveiros, canoas e pequenos barcos de pesca. 

No dia 7 de janeiro de 1823, Madeira de Melo enviou João Félix Pereira, chefe das forças navais portuguesas, que partiu para Itaparica comandando uma frota composta por 40 barcas, 2 brigues de guerra e diversas lanchas canhoneiras. A flotilha de João das Botas formou a linha de defesa que defendeu a Ilha de Itaparica e a foz do Paraguaçu, rio que conduz à cidade de Cachoeira, a mais importante do Recôncavo Baiano.

Seus esforços e inteligência militar não permitiram que os portugueses furassem o cerco e desembarcassem tropas, ou acessassem outras rotas marítimas capazes de suprir as necessidades alimentícias das suas tropas. Tais esforços foram de grande relevância para a vitória dos brasileiros e o retorno de Madeira de Melo e suas tropas para Portugal no dia 2 de julho de 1823, decretando a Independência do Brasil na Bahia.

Lendas sobre o Tenente Botas

Existem muitas histórias narradas pela tradição oral sobre João das Botas, porém, elenco aqui as duas mais famosas:

A tática da Coroa do Caboto

Diz o povo que o Tenente Botas usou seu profundo conhecimento do mar na Baía de Todos os Santos para enganar os portugueses, atraindo os grandes navios lusitanos para áreas de bancos de areia, como a Coroa do Caboto, durante a maré alta.

Quando a maré baixava, as embarcações portuguesas de grande porte e calado profundo encalhavam, tornando-se alvos fáceis para os pequenos e ágeis saveiros baianos.

Maria Felipa e o Tenente João das Botas são heróis da Independência do Brasil na Bahia
Maria Felipa e o Tenente João das Botas são heróis da Independência do Brasil na Bahia - Ilustração criada com IA

A Aliança com Maria Felipa

Muito se fala sobre as façanhas marítimas de João das Botas estarem entrelaçadas com as atividades em terra de Maria Felipa de Oliveira, marisqueira negra que supostamente liderou mulheres e indígenas. 

A lenda diz que, enquanto o Tenente Botas lutava contra os portugueses no mar, Maria Felipa seduzia os marinheiros que conseguiam desembarcar, dando-lhes surras de cansanção (planta urticante) e ateando fogo nas embarcações lusitanas.

Sobrado Tenente Botas em Itaparica

O sobrado está situado em uma esquina entre as praças Tenente Botas e Virgílio Damásio, e sua fachada fica bem de frente para o mar. Apesar de ter sido propriedade e residência de João das Botas no início do séc. XIX, sua construção é muito mais antiga.

De acordo com o arquiteto Paulo Ormindo David de Azevedo, o sobrado foi construído de forma robusta em pedra e cal, sendo a mais antiga construção residencial de toda a Ilha de Itaparica. Seu estilo arquitetônico confirma que sua construção é do séc. XVII, havendo algumas alterações realizadas no séc. XVIII. 

obrado do Tenente João das Botas Mercado Artesanal de Itaparica
O Sobrado do Tenente João das Botas onde hoje funciona o Mercado Artesanal de Itaparica

O autor ainda afirma que não existem documentos relativos à sua fundação e que não é impossível que ele tenha sido a casa dos contratos das baleias, de que falam alguns antigos cronistas. Lembrando que no local existiu uma importante armação baleeira, cuja extração de óleo foi a mais importante fonte econômica de Itaparica no séc. XVII. Por isso, o local era conhecido como Arraial da Ponta das Baleias, antes de passar a se chamar Itaparica.

Atualmente, o Sobrado do Tenente Botas é onde funciona o Centro Artesanal de Itaparica, e seus cômodos se tornaram lojinhas que vendem artesanato típico da região.

Agora que você sabe muito mais sobre o Tenente Botas de Itaparica, conheça também a ruína do Forno de Cal, outro monumento de profunda relevância histórica situado na exótica e paradisíaca Praia da Penha, na Ilha de Itaparica.

Bibliografia

AZEVEDO, Paulo Ormindo David de. IPAC-BA: Inventário de Proteção do Acervo Cultural da Bahia. Salvador: Secretaria da Indústria e Comércio e Turismo. v.2. Monumentos e Sítios do Recôncavo, 1975-2002. 7v.

TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, 1974. 

TAVARES, Luís Henrique Dias. Independência do Brasil na Bahia. Salvador: EDUFBA, 2023. 

BOITEAUX, Lucas Alexandre. As Façanhas de João das Bottas: A orla marítima do Recôncavo e a campanha da Independência na Bahia. Salvador: ALBA, 2023.


Por Márcio Vasconcelos de O. Torres

Historiador e viajante - marciotorresbb@gmail.com


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