
Postado dia 29/05/26 | 10min. de leitura
Comunidade Quilombola Camulengo: cultura e tradição
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A Comunidade Quilombola Camulengo é um cantinho especial da Bahia para quem busca a essência do turismo de experiência ou de base comunitária. O povoado é o ponto de partida da grande cadeia de montanhas do Sincorá, na Chapada Diamantina Meridional, e oferece paisagens únicas!
Porém, visitá-lo vai muito além de conhecer cachoeiras intocadas, serras, morros e mirantes encantadores, já que é no trato humano que o povoado mais encanta os privilegiados que o visitam.
Continue conosco e descubra uma das comunidades mais bonitas da Bahia!

História da Comunidade Quilombola Camulengo: principais marcos
A história da região é muito antiga, porém a história da comunidade Camulengo está diretamente ligada à trajetória do casal Florindo Conceição da Costa e Georgita Angélica Costa, descendentes de escravizados africanos que trabalharam nos ciclos do ouro e do diamante na região. Em 1943, Florindo se estabeleceu no pé da serra de local úmido, pertencente à Fazenda Jacu, propriedade de Miguel Dias.
O lugar, que era rota de tropeiros e viajantes, começou a se formar como povoado a partir do núcleo familiar do casal. Seu nome está associado a uma história popular da região, que diziam ser ali onde um tropeiro embriagado caiu em um atoleiro. Contrariado com o ocorrido, seu companheiro teria dito então: "pois deveria ficar lá por onde caíste, molengo!", sendo daí o nome Camulengo.
A consolidação do povoado se deu inicialmente por meio da agricultura de subsistência e de contratos de parceria. Sob o sistema de "meia" com o proprietário da Fazenda Jacu, a família de Florindo produzia o sustento e comercializava o excedente nas feiras regionais de Triunfo do Sincorá e Barra da Estiva, superando o isolamento geográfico por meio de trilhas precárias.

O crescimento da comunidade foi impulsionado pela cooperação mútua com famílias vizinhas, destacando-se a sólida amizade com Antônio Mendes, morador da localidade de Camada Preta.
Com o passar das décadas, casamentos sucessivos entre os descendentes dessas famílias moldaram o desenho social da vila, gerando uma rede de parentesco que fortaleceu a coesão comunitária e a identidade local.
Além dos laços de sangue, a manutenção da comunidade se sustentou na preservação de saberes tradicionais e manifestações religiosas. Práticas de medicina popular, baseadas no manejo de ervas e raízes nativas, lideradas por figuras como Ana (nora de Florindo) e o farmacêutico Tião Domingos, tornaram-se fundamentais para a assistência de saúde local.
No âmbito cultural, a introdução do festejo a São Sebastião por Ana instituiu a principal celebração religiosa do grupo, enquanto a produção artesanal de cachaça em alambique, iniciada por Florindo nos anos 80, converteu-se em tradição geracional celebrada até os dias atuais.
O marco definitivo de autonomia do povoado ocorreu com a transição para a cafeicultura. A comercialização do café permitiu o acúmulo de capital necessário para que as famílias adquirissem suas próprias terras.
Florindo comprou 50 hectares no Camulengo e Antônio Mendes adquiriu 40 hectares na Camada Preta, transações quitadas junto aos herdeiros de Miguel Dias, da Fazenda Jacu.
O acesso à propriedade privada estabilizou a permanência dos moradores, com a quase totalidade dos filhos dos patriarcas permanecendo no território. Esse vínculo com a terra segue se expandindo com as novas gerações, que continuam adquirindo lotes adicionais para diversificar o cultivo de subsistência e garantir a sustentabilidade econômica da comunidade.
Cultura e tradição do Camulengo

Poucos lugares no Brasil podem proporcionar eventos e festas tradicionais que não foram tragados pelo turismo comercial, como a Comunidade Quilombola Camulengo.
Sua beleza está em cada gesto, olhar, sorriso, na lida da lavoura, no acordar e se preparar para a labuta, no jeito singelo de cuidar dos filhos, que no final das contas, são filhos de todos.
Para eles, práticas como o “Reisado”, por exemplo, são sinônimo de fé, de humildade, fraternidade, respeito e amizade. A tradição é ensinada de geração em geração e não pense que os mais jovens estão alheios em razão das seduções tecnológicas. No Camulengo, eles são os mais animados, desde os pequeninos até os homenzarrões no auge da puberdade.
Eles cantam, dançam e tocam instrumentos, sempre com os olhares atentos no seu Durvalino, o atual patriarca que, no alto dos seus 85 anos, dá exemplo com muita força e disposição.
O Reisado no Camulengo não acontece apenas no dia 06 de janeiro (Dia de Reis), como ocorre em quase todos os lugares do Brasil. A bela tradição desfila em qualquer dia e hora, basta o desejo de algum visitante vê-los em ação. E tenha a certeza de que o maior pagamento para eles é um sorriso verdadeiro e a demonstração de admiração pela sua cultura genuína.
O São João é outra festividade muito comemorada no povoado, mas não espere shows de artistas famosos e pirotecnia. O grande momento da festa é liderado por uma zabumba, uma sanfona e um triângulo, que guiam os presentes de casa em casa, a comer, beber e festejar um dos santos mais democráticos e multi religiosos do mundo.
Ou seja, durante o dia e a noite, todas as casas ficam de portas abertas, sendo a circulação livre e com todos os presentes à vontade, sejam quilombolas ou visitantes. Sem contar a alegria das crianças correndo e brincando, as fogueiras onde assam bolos, milho, avoadores (biscoito), e a decoração caprichada que é feita por muitas mãos.
Quer mais? Ouça a cantoria das mulheres ao lavar roupas e louças na beira do rio, a torra artesanal do café, a produção de beiju com coco de licuri, a farinhada na casa de farinha, a feitura da rapadura em fogo à lenha, entre tantas e tantas outras preciosidades.
E sabe o que é melhor de tudo? É permitir que o tempo passe despercebido, admirar as noites estreladas e aproveitar uma boa prosa na porta das casas…
O que fazer na Comunidade Quilombola de Camulengo, Barra da Estiva: 11 atividades imperdíveis
Além das atividades culturais que citei anteriormente, é preciso saber que o Camulengo possui um cânion próprio, com várias opções de trilhas que levam a cachoeiras praticamente intocadas.
Isso quer dizer que a natureza por lá está viva como na sua origem, dá para imaginar? Assim sendo, confira seus principais atrativos!
1. Cachoeira da Camada Preta
Situada no ponto mais isolado do Cânion do Camulengo, a Cachoeira da Camada Preta é uma verdadeira pérola da Chapada Diamantina. Além de linda, ela é literalmente selvagem. Para chegar até lá, é preciso descer a trilha que mergulha no cânion e oferece mirantes de tirar o fôlego.
Ao chegar à base, existe uma bifurcação que leva a duas cachoeiras, sendo o caminho da direita o da Cachoeira da Camada Preta. Subir o leito do rio Camada Preta é um encanto, sendo o cenário como o Jardim do Éden. Nele, as plantas são exóticas, de um verde mais vibrante, e a mata chega a fechar completamente em alguns pontos.
Até à sua queda principal, é preciso saltar e andar sobre pedras escorregadias, passar por pequenas e lindas quedas d’água que proporcionam fotografias espetaculares. E a cachoeira em si parece sair diretamente de um filme sobre as expedições jesuíticas na América do séc. XVI.
Ela é pouco conhecida até pelos moradores do Camulengo, acredite se quiser!
2. Cachoeira da Bunda de Couro

Pode ser parte da mesma trilha que vai até a Cachoeira da Camada Preta. Todo o percurso é o mesmo até a bifurcação que citei no tópico anterior, sendo preciso pegar o caminho oposto a partir dali.
Trata-se de mais uma linda trilha com cenário e vegetação também genuínos, sendo a Cachoeira da Bunda de Couro tão bonita quanto. Com o adicional de possuir um poço para banho e uma grande pedra frontal que parece ter sido colocada ali para produzir “A” foto da viagem!
3. Poço do Meio Dia
É a trilha mais longa e mais difícil do Camulengo, e necessita de um dia inteiro somente para ela. O lugar é mágico e também está situado no mesmo cânion, porém do lado oposto às cachoeiras da Camada Preta e Bunda de Couro.

Localizado em um ponto estreito do cânion, o poço é comprido, bate sol quase o dia inteiro e ainda oferece uma linda cachoeirinha.
Ou seja, um verdadeiro balneário natural, ótimo para passar o dia em meio à natureza e tomar aquele cafezinho especial da Chapada!
4. Cachoeira do Florindo
Lembra do seu Florindo, o patriarca que fundou o povoado?
Pois bem, a cachoeira tem este nome em sua homenagem! Para chegar até lá, é preciso realizar uma trilha curta e considerada a mais fácil no povoado.
São 20 minutos de caminhada, sendo por isso uma ótima opção para famílias.
A Cachoeira do Florindo possui uma queda livre de 15 metros, e no percurso até ela é possível observar as lavouras de café e alguns mirantes.
5. Mirante Serra do Camulengo
Também conhecido como Mirante “Pôr do Sol”, ele está um pouco acima do povoado e entre as duas serras que levam o nome de Camulengo.

Estamos falando exatamente das primeiras elevações da Cordilheira do Sincorá no sentido Sul/Norte, um lugar de rara beleza e de onde se pode observar os morros vizinhos do Betume e do Ginete.
O acesso é fácil, sendo quase inteiramente percorrido de carro. Lá em cima a vegetação é de campo rupestre e o mirante oferece paisagem em 360º. Por isso, é o local perfeito para admirar o pôr do sol, que diga-se de passagem, é espetacular. Um lugar para respirar o ar gelado da montanha, silenciar a mente e se encontrar com a paz!
6. Sítio de Arte Rupestre do Camulengo

Como vários outros destinos da Chapada Diamantina, a Comunidade Quilombola Camulengo também oferece turismo arqueológico, já que guarda em seu território pinturas rupestres muito antigas dos povos caçadores e coletores que viveram no período neolítico.
Apesar da longa distância de 45 km do povoado, o percurso é feito de carro, restando apenas uma trilha curta até o local das pinturas.
7. Cercas de Pedra e Vales históricos
Existem muitas cercas de pedra espalhadas no território do tempo dos ciclos do ouro e do diamante, ou seja, que remontam aos séculos XVIII e XIX, respectivamente.

Também é possível observar os “vales”, que são valas largas com cerca de 2 a 3 metros de largura por até 2 metros de profundidade e que se estendem por longos quilômetros.
Ambos foram construídos por escravizados como uma maneira de demarcar os territórios dos antigos senhores proprietários das terras.
Tais elementos foram de fundamental importância para a demarcação das terras quilombolas, já que, ao garantir a presença de escravizados na região, confirmam a autenticidade das comunidades remanescentes de quilombola Camulengo, Motinha e Ginete.
8. Periquitos silvestres “domesticados”
São a atração mais inusitada do Camulengo e não é preciso ter sorte para admirar os periquitos “domesticados” que chegam a caminhar ao lado dos humanos. Alguns deles simplesmente descem da revoada, se separam rapidamente do bando para “socializar” com as pessoas, parando tão perto que, para tocá-los, basta esticar um braço. Mas nem pense nisso, pois essa é a senha certa para eles se dispersarem do local.
9. Feirinha do Camulengo
Aos sábados pela manhã acontece a feirinha ofertada pelos moradores da microrregião da Barragem, que levam seus produtos para vender à comunidade Camulengo.
No espaço comum do povoado, praticamente todos os moradores passam por lá, seja para comprar produtos de hortifrúti que não produzem, ou mesmo para bater papo. Também é tradicional o churrasco coletivo, que integra ainda mais todos os que a visitam.
10. Nascente das Lavadeiras
A Nascente das Lavadeiras, como o próprio nome diz, é uma nascente de água onde as mulheres da comunidade costumam lavar as roupas e também as louças sujas após o almoço.

O local se torna ainda mais emblemático em dias de festa e de eventos coletivos, com a lavagem da louça comunitária.
11. Comunidades quilombolas Moitinha e Ginete
As comunidades Camulengo, Ginete e Moitinha possuem atualmente três irmãos como patriarcas: Seu Durvalino, Seu Zeca e Seu Fernando, respectivamente. Seu Durvalino, que é o mais velho, é casado com Dona Nair, uma das filhas do casal fundador das comunidades, Florindo e Georgita.
Visitar a Moitinha e o Ginete é fundamental para se ter uma visão mais ampla sobre a região, especialmente em razão de cada uma delas apresentar características únicas.

Por exemplo, na Comunidade do Ginete é possível assistir a apresentações artísticas dos jovens, de maculelê, conhecer o modo de vida local, a produção de banana, de café, entre outras preciosidades.
Já a Moitinha é a única das três que vive essencialmente da produção de mandioca e seus derivados. Por isso, visitar a casa de farinha de lá é tão importante.
Além disso, vale muito bater um papo com os patriarcas Seu Zeca e Seu Fernando, que contam histórias da região e são figuras muito gentis e simpáticas.
Como chegar na Comunidade Quilombola Camulengo
Localizada a cerca de 25 km de Barra da Estiva, município baiano ao qual pertence, pode ser acessada a partir do centro da cidade sede. Para isso, é preciso percorrer 1,8 km pela rodovia BA-142, no sentido Tanhaçu, Ituaçu e Vitória da Conquista, e entrar à esquerda para acessar o trecho da BA-561.

A partir dela, percorre-se 7,9 km e, após uns 100 metros do PSF, é preciso fazer uma conversão à esquerda para acessar a estrada de barro que vai até o Camulengo.
Onde comer no Camulengo
Essa é uma das melhores coisas a se fazer no Camulengo! Não espere encontrar restaurantes estilizados, apenas uma cozinha comunitária onde as mulheres da comunidade produzem as mais deliciosas comidas da região. Quer ver?
“Cortado de palma”, “godó de banana”, galinha de quintal cozida, purê de abóbora, sendo tudo orgânico e com sabores indescritíveis.
Basta combinar com antecedência e terá sua refeição garantida e servida no espaço coletivo da comunidade, ao lado da sala da Associação.
Onde se hospedar na Comunidade Quilombola Camulengo

Apesar de ainda não existir uma pousada da própria comunidade, os moradores do Camulengo fazem parceria com a Pousada Serra do Camulengo.
A proprietária Marinês é neta de Miguel Dias, aquele mesmo que era dono da Fazenda Jacu e que recebeu Seu Florindo e Dona Georgita como “meeiros” na década de 1940.
O espaço é maravilhoso, com decoração estilo fazenda e onde o friozinho no meio do ano é certo! Outro destaque é o café da manhã, com tudo o que um café de fazenda pode proporcionar!
Agende sua visita ao Camulengo
Para que sua visita aconteça da melhor maneira, é preciso agendar com Dulcimar, neto do Seu Florindo, liderança da comunidade e guia local.

Lembrando que todas as trilhas e passeios só acontecem guiados por guias locais especializados, o que garante segurança e muito conhecimento sobre a história, geografia e a biodiversidade da região.
Telefone do guia Dulcimar: (77) 9.9975-6153
Agora que você já sabe sobre as principais informações a respeito da Comunidade Quilombola Camulengo, conheça também 12 cidades por onde passa o rio Paraguaçu, que nasce em Barra da Estiva, em um local bem próximo ao Camulengo. São lugares encantadores que podem somar significativamente ao seu roteiro de viagem à região sul da Chapada Diamantina.
Por Márcio Vasconcelos de O. Torres
Historiador e viajante - marciotorresbb@gmail.com












