
Postado dia 14/03/26 | 7min. de leitura
Ruínas da Igreja de Nosso Senhor de Vera Cruz: curiosidades
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Existem monumentos que praticamente falam quando visitados, ou melhor, chegam a gritar, de tão impressionantes que são! As ruínas da Igreja de Nosso Senhor de Vera Cruz, ou simplesmente Matriz de Vera Cruz, é um símbolo marcante da historiografia itaparicana, um marco que rompeu o tempo e que se preserva de pé por meios literalmente místicos!
Neste artigo, você vai conhecer um pouco sobre a história desta igreja, que está situada na Ilha de Itaparica e próxima ao mar da Baía de Todos os Santos. Confira também como chegar até ela, o que fazer por lá e outros monumentos históricos próximos para visitar!

Origem da Igreja de Nosso Senhor de Vera Cruz
Os jesuítas, liderados pelo padre Manoel da Nóbrega, adentraram às águas da Baía de Todos os Santos no dia 29 de março de 1549, juntamente com Tomé de Sousa e sua armada composta por 3 naus, 3 caravelas e aproximadamente mil pessoas. População que estava distribuída entre soldados, marinheiros, colonos e os próprios religiosos, que tinham por objetivo a catequese dos originários da terra.
Segundo Serafim Leite, os padres Antônio Pires e Luiz Rodrigues, juntamente com os irmãos Paulo Rodrigues e Manuel Andrade, fundaram a aldeia de Santa Cruz de Itaparica em 1561, em local posicionado na contra costa da Ilha de Itaparica e 8 léguas distante de Salvador. Logo construíram, com mãos tupinambás, uma casa e uma igreja cobertas de palha, que foram incendiadas em 1562.

Há um conflito quanto à data de fundação da aldeia, que de acordo com Paulo Ormindo Azevedo, autor do Inventário do IPAC, foi fundada em 1560 quando Luís da Grã chegou à Ilha de Itaparica. Ele construiu a igreja sob a invocação do Senhor de Vera Cruz, em terras que pertenciam à D. Violante, mãe do Conde de Castanheira, e que foram recebidas por doação na forma de sesmaria.

Ambos afirmam que a primitiva igreja era coberta de palha e pegou fogo em 1562, sendo reconstruída em 1563. Azevedo explica que desta segunda versão, ainda resta a lápide funerária de Francisco Nunes (1579), talvez a mais antiga que se conserva no país.
As ruínas atuais são uma mescla entre a segunda versão da igreja (1563) e sua reconstrução datada do século XVIII. Em 28 de agosto de 1945, a igreja foi inspecionada pelo IPHAN e ainda estava coberta, mas já abandonada e entrando em ruínas.
Segue a cronologia da Igreja de Nosso Senhor de Vera Cruz, como consta no Inventário de Monumentos Históricos da Bahia do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), publicado em 1978:
1560: neste ano, o jesuíta Luís de Grã chega à ilha e constrói em terras doadas em sesmaria a D. Violante, mãe do Conde de Castanheira, um povoado e uma igreja sob a invocação do Senhor de Vera Cruz.
1562: a igreja sofre um incêndio.
1563: D. Pedro Leitão, 2º bispo da Bahia, criou a Freguesia do Senhor ou da Santa Vera Cruz. O padre Antônio Pires, ainda este ano, reconstruiu o monumento.
1757: segundo o Pe. Cristovão Santos, a freguesia possuía na época quatro léguas e se estendia da Ponta das Baleias até o sítio da Parapatinga onde se limitava com a Freguesia de Santo Amaro. A povoação estava deserta porque a população se transferiu para a Ponta das Baleias. "A igreja está pouco paramentada e de presente quase demolida em ordem a consertarem mas isso já há mais de cinco anos que assim se acha, e por falta de dinheiro está parado o conserto".
1759: a freguesia possuía 387 fogos (casas) e 2.897 almas neste ano.
Igreja sustentada por gameleira: sincretismo místico?

A gameleira é uma árvore sagrada para o Candomblé, que a tem como morada do orixá Irôko, o senhor do tempo e a conexão entre o céu e a terra. A grande mística que envolve essa ruína é a imensa gameleira que a sustenta, com suas raízes enormes entrelaçadas às paredes do templo.
O orixá Irôko também é cultuado em rituais de cura e de conexão com os antepassados, sendo a raiz aérea da gameleira uma conexão entre o mundo material e o espiritual.
Na terra em que o sincretismo religioso se fez historicamente presente, quisera o tempo que uma gameleira gigante ali nascesse, crescesse e passasse a sustentar a igreja mais antiga da Ilha de Itaparica, local onde tantos africanos foram escravizados, torturados e mortos.
Portanto, ao chegar neste local, saiba que estará entrando em solo sagrado e cuja presença ancestral se faz presente!
O que fazer nas ruínas da Matriz de Vera Cruz

Além de ser um local de espiritualidade e muita história, o conjunto formado entre as ruínas e a gameleira são de beleza ímpar, criando um cenário fotográfico digno de cinema. As fotos no interior dos cômodos ficam muito especiais e até mesmo, atemporais!
Dê uma caminhada ao redor do monumento, entrando na nave da capela e explorando os cômodos laterais, onde as imensas raízes da gameleira criam uma atmosfera mágica que mais parece saído de um conto de fadas.
Como chegar nas ruínas da Igreja de Nosso Senhor de Vera Cruz
A ruína da Matriz de Vera Cruz fica a 2,2 quilômetros antes do povoado de Baiacu, na Ilha de Itaparica, e pode ser vista à esquerda no sobre um morro descampado e gramado. De longe é possível ver a grande gameleira que sustenta suas paredes, sendo a igreja melhor percebida ao se aproximar dela.
Para chegar até lá, é preciso atravessar a Baía de Todos os Santos pelo ferry boat e seguir por 9 quilômetros da BA-001 até a entrada para o povoado de Baiacu. Dali em diante, são aproximadamente 4,8 quilômetros pela BA-868 até o local onde está a igreja.
Uma observação importante: não é possível ver a entrada da ruína indo, já que a paisagem a encobre. Porém, caso você passe do local e chegue em Baiacu, não se preocupe, é só retornar pela mesma pista e será bem fácil vê-la à direita.
Outros monumentos para visitar na Ilha de Itaparica
Por ser um dos territórios mais antigos da colonização portuguesa no Brasil, a Ilha de Itaparica possui outros monumentos históricos em ruínas que são de grande relevância e rara beleza, confira os principais:
Ruínas da Capela de Santo Antônio de Velasquez

A Capela de Sto. Antônio de Velasquez está localizada em Mar Grande, principal povoado do município de Vera Cruz, na Ilha de Itaparica. Construída de frente para o mar no final do séc. XVII, fazia parte da Fazenda de Santo Antônio dos Velasquez, propriedade da família Velasquez.
O monumento impressiona pela antiguidade e pela beleza da composição arquitetônica com o colorido da paisagem, que tem o mar verde da Baía de Todos os Santos como moldura de fundo. Para chegar lá, é preciso caminhar cerca de 1,5 quilômetros à esquerda do Terminal Marítimo de Mar Grande.
Ruína do Forno de Cal

É a ruína mais antiga da Ilha de Itaparica e uma das mais velhas de todo o estado da Bahia. Trata-se de uma primitiva caieira, espécie de forno construído em alvenaria de pedra, onde se produziu o cal utilizado nas primeiras obras da construção de Salvador.
Portanto, uma ruína datada de 1549 que se encontra magnificamente dentro d’água, cercada por recifes de corais e lindas piscinas naturais de águas cristalinas.
O monumento está ao lado da Praia da Penha, e cerca de 2,2 quilômetros à direita do Terminal Marítimo de Mar Grande.
Igreja de Nossa Senhora da Penha

A Igreja de N. Sra. da Penha fica bem perto da ruína do Forno de Cal e ao seu lado também há um antigo casarão colonial de data mais recente. A igreja é de arquitetura rural, foi construída no final do séc. XVII e possui características das primeiras construções jesuíticas no Brasil.
Os dois monumentos estão situados em uma ponta de praia cercada por recifes de corais e mar cristalino. A paisagem do local é simplesmente espetacular!
Tomando como referência o Terminal Marítimo de Bom Despacho, para chegar na Igreja da Penha é preciso seguir pela rodovia BA-001 durante cerca de 4 quilômetros até a placa indicativa. Virando à esquerda, continue em linha reta até a entrada do Cond. da Penha, onde é preciso deixar o carro do lado de fora e continuar caminhando por poucos metros até a praia.
Ruína da Igreja de Nossa Senhora da Conceição

É mais uma ruína de frente para o mar na Ilha de Itaparica, cuja sua localização e arquitetura impressionam pela beleza. A igreja é datada do final do séc. XVII, e segundo Serafim Leite, foi construída no interior de uma grande fazenda cuja posse era de Francisco Gil de Araújo.
É possível chegar de carro até ela, que está atualmente em frente a praia e povoado de Conceição, no município de Vera Cruz.
Agora que você já sabe sobre as ruínas da Igreja de Nosso Senhor de Vera Cruz, confira também todos os detalhes de como chegar com facilidade à Itaparica!
Bibliografia
AZEVEDO, Paulo Ormindo David de. IPAC-BA: Inventário de Proteção do Acervo Cultural da Bahia. Salvador: Secretaria da Indústria e Comércio e Turismo. v.2. Monumentos e Sítios do Recôncavo, 1975-2002. 7v.
BONFIM, Alexandre Gonçalves. As Capitanias de Itaparica e Tamarandiva e do Paraguaçu: administração, direito de propriedade e poder na América portuguesa (c1530-c1630). Dissertação de Mestrado em História. Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2016.
LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
OSÓRIO, Ubaldo. A Ilha de Itaparica: História e Tradição. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1979.
Por Márcio Vasconcelos de O. Torres
Historiador e viajante - marciotorresbb@gmail.com
