
Postado dia 01/06/26 | 7min. de leitura
Mato Grosso na Bahia: história e charme da Vila Portuguesa
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A charmosa vila Mato Grosso, na Bahia, também é conhecida como Vila Portuguesa em razão de ali viverem descendentes dos portugueses que chegaram na região em busca de ouro.
Este lugar ímpar situado na zona rural da cidade de Rio de Contas, é um dos pontos mais altos da Chapada Diamantina, além de riquíssimo em história e cultura. Uma região que também proporciona belos cenários, trilhas, picos e cachoeiras extraordinárias.
Viaje conosco e descubra sobre sua fascinante história, peculiaridades e o que fazer por lá!

História da Vila Portuguesa do Mato Grosso: principais marcos
A Vila Portuguesa é atualmente um distrito da cidade de Rio de Contas, mas sua história é ainda mais antiga.
As primeiras entradas de exploração que alcançaram a região são datadas de 1681 e buscavam o ouro tão sonhado pela Coroa Portuguesa. Sendo mais específico, o primeiro pouso dos sertanistas portugueses ocorreu no Rio Brumado, a este tempo conhecido como Rio de Contas Pequeno.
Suas margens eram habitadas pelos bravos aimorés, etnia do tronco linguístico macro-jê também conhecida como botocudos em razão de usarem botoques de madeira ou pedra nos lóbulos das orelhas e no lábio inferior. Para surpresa, os colonizadores também encontraram no local um mocambo de negros que ali viviam há longo tempo.

Por isso, o local situado no planalto da Serra das Almas e à margem esquerda do Rio de Contas Pequeno (Rio Brumado) ficou conhecido como Descanso dos Creoulos.
Por volta de 1710, o bandeirante Sebastião Raposo descobriu os primeiros veios de cascalhos auríferos em um local conhecido como Mato Grosso, atraindo grande contingente de bandeirantes paulistas, garimpeiros e mineradores.
A corrida pelo ouro foi, portanto, responsável pela fundação do primeiro arraial da região, denominado Santo Antônio do Mato Grosso, onde foi construída a Igreja de Santo Antônio, que é considerada a primeira de toda a imensa Chapada Diamantina.
Ela foi a sede da primeira freguesia do Alto Sertão Baiano, fundada em 1718 com o objetivo de garantir o recolhimento dos impostos da Coroa Portuguesa. Vale destacar que a primitiva versão da igreja foi uma capela construída pelos jesuítas, que ali chegaram acompanhando os primeiros faiscadores do Rio Brumado.
Singularidade étnica da Vila dos Portugueses
Um dos pontos marcantes da Vila Portuguesa do Mato Grosso, em Rio de Contas, é sua forte identidade ligada a imigrantes portugueses, sendo muitos deles oriundos da região de Mafra, localizada a 30 km de Lisboa.
As altitudes do Mato Grosso viraram o reduto desses colonos lusitanos, gerando uma comunidade de camponeses brancos e serranos que se isolou após o fim do ciclo do ouro.

Em geral, eles costumam casar entre si, o que vem garantindo uma nítida predominância branca e características fenotípicas genuínas da sua população.
A Vila Portuguesa está situada a 1450 metros de altitude, sendo considerado o povoado mais alto da Bahia. Assim sendo, ao visitá-lo no inverno, prepare-se para um frio que pode chegar a 5º C!
Por outro lado, a região mais baixa do território possui a presença marcante de descendentes de escravizados, a exemplo das comunidades quilombolas Bananal e Barra.
A questão é que os portugueses que habitavam a vila no alto não permitiam que escravizados vivessem na mesma localidade que eles e, por isso, permaneceu essa diferença de fenótipos entre as partes alta e baixa.
Bibliografia
ARAKAWA, Maria de Lourdes Pinto e. As Minas do Rio de Contas. Salvador: a autora, 2022.
AZEVEDO, Paulo Ormindo de. Inventário de Proteção do Acervo Cultural da Bahia - Monumentos e Sítios da Serra Geral e Diamantina. v. IV. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo, 1978.
SANTOS, Agnaldo Ribeiro dos. As Minas do Rio de Contas: Capitanias do Ouro na Bahia (1710-1800). Salvador: Edições Cidade da Bahia/EGBA, 2005.
O que fazer na Vila Portuguesa do Mato Grosso: 5 lugares para seu roteiro
As principais atrações são os próprios povoados em si, destacando a Vila Portuguesa e as comunidades quilombolas Bananal e Barra. Mas a região guarda alguns tesouros naturais e culturais que merecem ser conhecidos. Confira!
1. Ponte do Coronel

Pequeno recanto do Rio Brumado, onde se formam diversos poços que são verdadeiras piscinas naturais.
O local é excelente para o banho e para curtir um dia em família, especialmente as que possuem crianças e idosos.
A Ponte do Coronel também apresenta trechos com pequenas quedas d’água e corredeiras, além de uma linda prainha de areia cercada por uma vegetação preservada.
Ela é conhecida como “a praia de Rio de Contas”, pelas características naturais e também por oferecer infraestrutura com estacionamento, bar e restaurante.
2. Mirante Bittencourt
Se a Vila Portuguesa já está em uma região alta e fria, o que dizer do Mirante Bittencourt, que fica no topo da serra que leva o mesmo nome? O local é encantador e sua altitude passa dos 1600 metros, havendo registro de temperatura que chegou a 2º C.

O mirante em si oferece duas vistas espetaculares: de um lado se vê a cidade de Rio de Contas, as plantações no alto da serra, a Barragem do Rio Brumado e o belo recorte serrano da região. Do outro, é possível admirar os “Gigantes do Nordeste”, uma cadeia onde estão as mais altas montanhas do Nordeste brasileiro, com destaque para o Pico do Barbado (2.033 m), o Pico das Almas (1.958 m) e o Pico do Itobira (1.940 m).
3. Bar e Cafeteria Alto da Chapada
O fundador do espaço conhecido como Bar e Café Alto da Chapada se chama Nem, é descendente direto dos colonizadores portugueses e uma figura emblemática da Vila Mato Grosso.
Ele fica exatamente no último ponto antes do início da trilha que sobe até o Mirante Bittencourt e é sempre uma grata surpresa para quem está passando ali pela primeira vez.
O estabelecimento é muito estiloso e proporciona dois ambientes distintos dentro do mesmo espaço: logo na entrada, o bar possui decoração rústica, iluminação amarela e algumas mesinhas e cadeiras plásticas que denotam ainda mais a sua simplicidade.
A partir dele e ao adentrar por outra porta, surge a cafeteria, um ambiente charmoso, com vista para a serra e decorado com mesas e cadeiras de madeira. Há ainda a presença de um mini-museu, onde Nem guarda algumas relíquias históricas, como ferros de passar roupas a carvão, pilão de madeira, barril de cachaça, entre outras preciosidades.
Porém, o maior destaque é o Café Alto da Chapada, produzido pelo próprio Nem. Trata-se de um café especial, cuja plantação fica ali mesmo no quintal do estabelecimento e também em outro terreno que ele possui próximo ao Mirante Bittencourt. Por isso, não deixe de visitá-lo para um cafezinho em um ambiente super agradável.
4. Igreja de Santo Antônio

A antiga Igreja de Santo Antônio, como já foi dito, foi a primeira construída na Chapada Diamantina e está localizada na praça central da Vila Portuguesa do Mato Grosso. Apesar de sua fachada ter sido descaracterizada por uma obra realizada pela comunidade na década de 1950, o templo ainda guarda características históricas, como a parede do fundo, que não possui reboco e expõe a alvenaria antiga de pedras.
No interior, destaca-se antiga imaginária em madeira, com N. Sra. do Rosário, São Francisco das Chagas, Sta. Efigênia, N. Sra. da Guia e Sta. Luzia. Também do tempo da sua construção original estão as duas bacias do púlpito, os degraus e base do presbitério, o arco-cruzeiro, os cunhais, seteiras e cercaduras de portas, tudo em cantaria de pedras trazidas de Portugal.
5. Ruínas da Igreja de Sta. Efigênia
A existência das ruínas de uma igreja dedicada a Santa Efigênia na Vila Portuguesa do Mato Grosso está diretamente ligada à mão de obra escravizada negra que trabalhava na extração do ouro de aluvião e nas lavouras.
Enquanto a Vila Portuguesa de Mato Grosso se consolidava no topo da serra como um reduto de colonos brancos devotos de Santo Antônio, a população negra, escravizada ou alforriada, que habitava a parte abaixo da vila, era proibida de frequentar a Igreja de Santo Antônio que, por sua vez, era liderada pela irmandade dos brancos.
Por isso, a população de origem africana se organizou e fundou a Irmandade dos Homens Pretos e a Irmandade de N. Sra. do Rosário, passando a cultuar santos negros como São Benedito e Santa Efigênia.
A partir de então, erigiram a Igreja de Santa Efigênia um pouco acima da Igreja de Santo Antônio, mas em razão do rápido esgotamento do ouro entre o final do séc. XVIII e no início do XIX, sua obra foi abandonada e a igreja ficou inacabada.

Onde se hospedar na Vila Portuguesa
Uma ótima opção de hospedagem fica no Bar e Café Alto da Chapada, onde Nem construiu dois quartos no primeiro andar. A vista é estupenda, o clima é ainda mais frio que o de Piatã, considerada a cidade mais fria da Bahia. Portanto, o lugar ideal para quem está à procura desse tipo de clima!
Passeio bate e volta a partir de Rio de Contas
Uma ótima alternativa para quem está em Rio de Contas e não possui muito tempo disponível é realizar o passeio bate e volta para a Vila Portuguesa do Mato Grosso com o Guia Lé, nativo de Rio de Contas e profundo conhecedor das trilhas e montanhas da região.

O passeio visita o centro da vila, a Igreja de Santo Antônio, as ruínas da Igreja de Sta. Efigênia, o Mirante Bittencourt, a Ponte do Coronel e ainda oferece a possibilidade de conhecer as comunidades quilombolas Bananal e Barra.
Agora que você já tem em mãos as principais informações sobre a Vila Portuguesa do Mato Grosso, conheça mais a fundo a incrível e histórica Rio de Contas, cidade tombada pelo IPHAN e cujo centro histórico colonial é um dos mais belos e conservados do país.
Por Márcio Vasconcelos de O. Torres
Historiador e viajante - marciotorresbb@gmail.com
