
Postado dia 03/03/26 | 6min. de leitura
Forte de São Lourenço em Itaparica: história à beira-mar
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O Forte de São Lourenço em Itaparica é um dos monumentos históricos mais icônicos de todo o estado. Isso se dá por três razões: pela sua importância histórica, tendo sido palco de momentos marcantes e batalhas decisivas; pela sua arquitetura e imponência; e pela localização, cercado por uma praia de areia branca e as águas cristalinas da Baía de Todos os Santos.

Neste artigo, apresentamos um pouco da sua rica história, sua localização, como chegar até ele e o que fazer em seu entorno, além de tomar banhos deliciosos, é claro.
História do Forte de São Lourenço
O local onde hoje está o Forte de São Lourenço era conhecido como Ponta da Baleia, em razão de ali ter sido um ponto estratégico para a captura de baleias. Atividade que iniciou no séc. XVI e aconteceu em paralelo à produção dos engenhos de açúcar.

Além da Ponta da Baleia, que foi a primeira armação da Bahia, outros locais da Ilha de Itaparica também serviram a essa finalidade, como Manguinhos, Porto Santo, Gamboa e Barra do Gil.
A primeira obra militar que se tem conhecimento no local foi citada pelo padre Antônio Vieira como sendo dos holandeses, construída no período da primeira invasão dos batavos entre 1624 e 1625. Era uma plataforma de artilharia, não sendo ainda considerada uma fortaleza.
Em 1647, quando os holandeses invadiram a Baía pela terceira vez, o comandante Sigismundo von Schkoppe conquistou e ocupou a Ilha de Itaparica, mandando construir um forte na Ponta da Baleia.
No mesmo ano, a fortificação resistiu a um ataque português, mas quando os holandeses se retiraram para Recife, o comandante Schkoppe mandou destruí-la.

A questão principal é que a posição era estratégica, impedindo o desembarque no único porto natural da ilha, além de proteger e abrigar pequenas embarcações que vinham do Recôncavo Baiano para abastecer Salvador.
Por isso, o governador D. Rodrigo da Costa mandou reconstruí-lo, dizendo em carta ao ministro de Estado Antonio Pereira da Silva, datada de 20 de setembro de 1704, que:
“[...] e porque a experiencia da guerra passada que houve nesta Baía com os holandeses mostrou ser preciso impedir-se-lhe a fortificarem-se na ilha de Itaparica […]”
A obra só foi iniciada em 1711, sendo concluída em 1772.
O Forte de São Lourenço nas batalhas pela Independência do Brasil na Bahia
Encontravam-se os portugueses liderados pelo general Madeira de Melo sitiados em Salvador, por um cerco armado pelos baianos, que não lhes permitiam receber alimentos de nenhuma parte.
Como os portugueses tinham maior capacidade naval, realizaram algumas tentativas de furar o cerco, sendo rechaçados em batalhas como a do Funil, em Saubara, no mar da Ilha de Maré, na Barra do Paraguaçu, em Itaparica, e a mais sangrenta de todas: a de Pirajá.
Silva Campos explica que um capitão português de nome “Trinta Diabos” invadiu o Forte de São Lourenço em 10 de julho de 1822, saqueando, matando 2 soldados de guarnição e destruindo a artilharia. Uma série de manobras reconstituiu o forte com 16 peças de artilharia, que repeliram corajosamente a numerosa esquadrilha de lanchas, barcos e brigues portugueses nos dias 7 e 8 de janeiro de 1823.
Segue a cronologia do Forte de São Lourenço, conforme Paulo Ormindo David de Azevedo, autor do inventário de Monumentos Históricos da Bahia, do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC):
1624: o português João Francisco, pescador de baleias, se estabelece no local.
1647: Segismundo Schkoppe ocupa a ilha e constrói um forte de quatro redutos que resistiu ao ataque português de 10 de agosto conduzido por Francisco Rebelo. Ao se retirarem para o Recife, os holandeses arrasam o forte.

1704: o Gov. D. Rodrigo da Costa promete reconstruí-lo.
1711: o Gov. D. Lourenço de Almeida ordena a construção do atual forte, no local do antigo. Ainda inacabado, o Vice-Rei Marquês de Angeja nomeou Antonio Gonçalves da Rocha capitão do mesmo, obrigando-se este a ampliar a construção às suas custas, obedecendo à planta do Brig. João Massé.
1719: o Gov. D. Sancho de Faro inspeciona as obras.
1772: o Forte é medido e tombado.
1823: desempenha relevante papel nas lutas de Independência, repelindo o ataque de 7 e 8 de janeiro deste ano.
1859: quando foi visitado por D. Pedro II, estava muito arruinado, com canhões imprestáveis e sua Casa de Comando transformada em cadeia pública.
1862/63: o forte é recuperado.
1892: servia como enfermaria.
Forte de São Lourenço: como chegar
Primeiramente, é preciso entender que o território da Ilha de Itaparica é dividido em 2 municípios: o maior deles e que ocupa quase toda a ilha é Vera Cruz, sendo a antiga cidade de Itaparica reduzida apenas ao extremo norte do território.
O Forte de São Lourenço está localizado exatamente na ponta da cidade de Itaparica e para chegar até lá, é preciso atravessar a Baía de Todos os Santos. Para tanto, existem duas maneiras:

Pelo ferry boat
O ferry boat sai do Terminal Marítimo de São Joaquim, em Salvador, e nele atravessam pedestres e automóveis.
Chegando ao Terminal Marítimo de Bom Despacho, em Vera Cruz, é preciso se deslocar até a cidade de Itaparica, um percurso de aproximadamente 8 quilômetros.
Para quem não estiver de carro, de Bom Despacho saem automóveis coletivos para diversas partes da ilha, incluindo Itaparica.
Pela lancha de Mar Grande
A lancha sai do Terminal Turístico Náutico da Bahia, localizado em frente ao Mercado Modelo. Somente atende passageiros, atravessando-os para Mar Grande, a vila-sede do município de Vera Cruz. De lá saem automóveis coletivos para diversas partes da ilha, incluindo Itaparica.
O que fazer no entorno do Forte de São Lourenço em Itaparica

O Forte de São Lourenço é parte do centro histórico de Itaparica, e bem pertinho dele estão outros importantes monumentos:
Igreja de São Lourenço
Em seu livro Tratado Descritivo do Brasil em 1587, Gabriel Soares de Sousa cita a Igreja de São Lourenço como parte do um engenho de açúcar de sua propriedade.
Mas a igreja atual foi construída em 1610, de acordo com o pesquisador itaparicano Ubaldo Osório.
Ela fica a cerca de 300 metros do Forte São Lourenço e preserva antigas imagens de São Lourenço, Sr. dos Martírios e Sr. da Cruz.

Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento
Igreja construída em 1794, a mando do padre Manoel de Cerqueira Torres.
Pouco tempo depois, em 1815, foi transformada em matriz quando o arraial da Ponta da Baleia se tornou freguesia.
Seu interior apresenta decoração de transição entre o rococó e o neoclássico.
O arco cruzeiro, por exemplo, possui talha rococó, enquanto o altar principal é neoclássico. A igreja Matriz fica ao lado da Igreja de São Lourenço.
Sobrado Monsenhor Flaviano ou Solar do Rei

Não se sabe ao certo a data da sua construção, mas pela arquitetura é um edifício do final do séc. XVIII ou início do séc. XIX.
O casarão ficou marcado por ter hospedado o príncipe regente D. João VI em 1808, quando o mesmo visitou a ilha a passeio.
A partir daí ficou conhecido como Solar do Rei. Outra curiosidade é que o Imperador D. Pedro II também se hospedou lá, descansando no mesmo aposento que seu pai dormiu em 1808.
O casarão fica bem em frente a prainha do Forte São Lourenço e nele funciona um restaurante e uma sorveteria, excelentes opções para curtir o pôr do sol e a noite em Itaparica.
A praia do Forte de São Lourenço em Itaparica

E falando na prainha do Forte de São Lourenço, é preciso dizer que ela é um cantinho especial da Baía.
A praia em si contorna toda a muralha da fortaleza, mas seu canto esquerdo é muito lindo, com mar calmo, cristalino e paisagem pitoresca, marcada pela arquitetura colonial dos casarões e pela imponente presença do próprio forte.
Além disso, é um lugar frequentado por famílias e mesmo no alto verão, se mantém muito tranquilo e com a presença de poucas pessoas.
Visto que já está por dentro das informações mais relevantes sobre o Forte de São Lourenço em Itaparica, confira também 10 atrações imperdíveis na Ilha de Itaparica.
São lugares lindos que, certamente, agregarão muito ao seu roteiro de viagem!
Bibliografia
AZEVEDO, Paulo Ormindo David de. IPAC-BA: Inventário de Proteção do Acervo Cultural da Bahia. Salvador: Secretaria da Indústria e Comércio e Turismo. v.2. Monumentos e Sítios do Recôncavo, 1975-2002. 7v.
CAMPOS, J. da Silva. Fortificações da Baía. Rio de Janeiro: Publicações do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - Ministério da Saúde, 1940.
COMERLATO, Fabiana. Relatório Final: As Armações da Pesca da Baleia em Itaparica - Bahia. Salvador: UFBA, 2011. 35 f. Relatório Técnico.
OSÓRIO, Ubaldo. A Ilha de Itaparica: História e Tradição. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1979.
Por Márcio Vasconcelos de O. Torres
Historiador e viajante - marciotorresbb@gmail.com
