
Postado dia 27/06/26 | 4min. de leitura
Ilha do Medo: mistérios e histórias na Baía de Todos os Santos
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A Ilha do Medo, na Bahia, é provavelmente um dos lugares mais misteriosos do Brasil, sendo cercada de lendas macabras e muita história. Mas também uma das ilhas mais paradisíacas e preservadas da Baía de Todos os Santos e de todo o Nordeste, pois se trata de uma Estação Ecológica de preservação ambiental. Portanto, ninguém vive nela!
Neste artigo, apresento um pouco sobre sua história, as famosas lendas fantasmagóricas que até hoje afugentam pescadores da região, como chegar e o que fazer próximo à ela, continue conosco!

Um resumo histórico da Ilha do Medo
Com cerca de 12 mil metros quadrados, a pequena Ilha do Medo é uma das 56 ilhas da Baía de Todos os Santos, estando exatamente entre a Ilha dos Frades e o município de Itaparica, na Ilha de Itaparica.
Em seu entorno viviam os tupinambás, não havendo documentação antiga que confirme a presença de algum grupo desta etnia habitando lá. Apenas o registro de Gabriel Soares de Sousa em seu livro “Tratado Descritivo do Brasil em 1587”, quando diz que os tupinambás faziam ciladas uns aos outros escondidos em canoas atrás de uma ilheta, “que se chama a do Medo”.
Por se tratar de uma porção insular de localização estratégica na Baía de Todos os Santos, foi o território onde os holandeses se esconderam em 1648 após sucessivas derrotas submetidas pelas forças luso-brasileiras.

Segundo o historiador itaparicano Ubaldo Osório, a Ilha do Medo teve importante papel no tráfico ilegal de escravizados após a proibição oficial do tráfico negreiro em 1831, tornando-se ponto de acomodação, triagem e desembarque clandestino de cativos em 1834. Os contrabandistas ali os mantinham até que pudessem ser transferidos para depósitos na cidade de Salvador ou Recôncavo Baiano.
No seu diário de viagem pelo Brasil, Dom Pedro II registrou sua entrada na Baía no dia 6 de outubro de 1859, fazendo menção direta à Ilha do Medo e ao andamento das obras civis-militares no local: "Defronte de Itaparica está uma pequena ilha coberta de coqueiros chamada do Medo onde começam agora as obras para depósito da pólvora, convindo examinar se não fica muito exposta a qualquer ataque."
Posteriormente, o mesmo D. Pedro II comenta sobre o atraso nas obras do depósito de pólvora e da casa que estavam sendo construídos, que só viriam a ser inauguradas em 1861. Posteriormente, se tornaram um hospital leprosário, local de isolamento para portadores de hanseníase deixados na Ilha do Medo para morrer.
Histórias macabras sobre a Ilha do Medo
A ilha é tão pequena que parece sem importância, mas suas histórias sobre guerras, mortes e sofrimento de escravizados e leprosos ali depositados ecoaram ao longo dos séculos, chegando até a atualidade com a força da tradição oral.
Até hoje, os pescadores da região não a utilizam como pousada, relatando que a Ilha do Medo é mal-assombrada e que durante a noite é possível ouvir gritos de dor dos muitos que nela morreram. O povo conta que esses gritos também são de holandeses mortos ali em batalhas contra os portugueses durante a primeira metade do séc. XVII.
Mas existem duas histórias ainda mais arrepiantes: a primeira, diz respeito a uma mulher diabólica que cuspia fogo e teria sido avistada por um pescador quando o mesmo dormia na ilha. Ele teria ficado mudo após ter contado a história do que viu.

A segunda é a mais famosa e narra que um padre de Itaparica foi convidado a rezar uma missa na Ilha do Medo. Após sua recusa, foi condenado a viver nela até a morte e por isso sua alma ficou ali aprisionada. A lenda diz que a assombração aparece à noite convidando quem está dormindo na ilha para a sua missa que nunca foi realizada.
Bibliografia
OSÓRIO, Ubaldo. A Ilha de Itaparica: História e Tradição. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1979.
PEDRO II, Imperador do Brasil. Diários de D. Pedro II: 1840-1891. Rio de Janeiro: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1959.
SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. São Paulo: Editora Hedra, 2010.
Ilha do Medo e Itaparica
A proximidade entre a Ilha do Medo e o município de Itaparica é tão grande que muito se pensa se tratar do mesmo lugar. Lembrando que a cidade de Itaparica fica na extremidade norte da Ilha de Itaparica, sendo também um lugar histórico repleto de monumentos antigos como igrejas, casarões coloniais e o imponente Forte de São Lourenço.
Da orla de Itaparica se vê a Ilha do Medo, sendo possível contratar barqueiros para visitá-la. A ilha em si é pequena, plana, tomada por resquícios de mata atlântica, manguezal e uma ponta de praia com areia branca que é um escândalo de tão linda! Nesse ponto, o mar verde e cristalino da Baía de Todos os Santos oferece um dos melhores banhos da região, sendo especial também para produzir imagens subaquáticas.
Para os exploradores, curiosos e apaixonados por história, adentrando à ilha em linha reta a partir da supracitada prainha, encontram-se as ruínas do antigo depósito de pólvora e quartel militar, que depois foram transformadas em leprosário.
Como chegar à Ilha do Medo
Além da opção de contratar um barco a partir de Itaparica, também é possível ir até a Ilha do Medo saindo de Salvador.

Em geral, existem passeios de lancha cujos roteiros podem incluir uma paradinha lá, a exemplo do passeio de lancha privativa que leva para a Ilha dos Frades.
O fato é que fretando uma lancha, é possível fazer várias combinações em roteiros de um dia que podem incluir a Ilha do Medo, a Ilha dos Frades e a Ilha de Maré.
Agora que você já conhece a Ilha do Medo, na Bahia, descubra tudo o que é possível fazer na Ilha de Itaparica, uma ótima opção para seu passeio entre as ilhas da Baía de Todos os Santos. Ela oferece muitos atrativos entre praias paradisíacas e monumentos históricos de grande relevância.
Por Márcio Vasconcelos de O. Torres
Historiador e viajante - marciotorresbb@gmail.com
