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Município de Itaparica, na Ilha de Itaparica

Postado dia 15/08/26 | 9min. de leitura

Município de Itaparica, na Ilha de Itaparica

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O município de Itaparica está localizado na porção norte da famosa Ilha de Itaparica, a maior entre as 56 existentes na imensa Baía de Todos os Santos. Trata-se de uma cidade muito antiga que preserva belo centro histórico repleto de casarões coloniais, igrejas seculares e uma imensa fortaleza de frente para o mar.

O lugar é encantador, bucólico, e possui praias paradisíacas com algumas das piscinas naturais mais cristalinas da Bahia.

Continue conosco e descubra Itaparica!

O centro histórico de Itaparica
O centro histórico de Itaparica

Quantos municípios tem na Ilha de Itaparica

A Ilha de Itaparica possui cerca de 239 a 246 quilômetros quadrados e aproximadamente 36 quilômetros de comprimento, sendo administrativamente dividida em dois municípios: Vera Cruz e Itaparica

O primeiro ocupa 87% do seu território e o segundo, apenas 13%. Este artigo é dedicado apenas ao município de Itaparica, o menor da Ilha, que guarda tesouros históricos, naturais e muita tradição.

História de Itaparica e sua tradição

A Ilha de Itaparica é um verdadeiro pilar da história e da formação cultural da Bahia, e suas origens remontam ao período anterior à colonização portuguesa, quando seu território era habitado pelos tupinambás. 

É dessa etnia que seu nome deriva, uma homenagem ao cacique Taparica. Este, por sua vez, era pai de Guaibimpará, nome de nascimento da imortal Catarina Paraguaçu, figura central na miscigenação da Bahia colonial.

Século XVI e a propriedade privada: colonos, jesuítas e escravidão

Reconstrução da igreja jesuíta de Nosso Senhor de Vera Cruz em 1563 Ilha de Itaparica
Reconstrução da igreja jesuíta de Nosso Senhor de Vera Cruz em 1563 - Imagem construída por Inteligência Artificial

Ainda no século XVI, a Ilha de Itaparica vivenciou uma profunda reconfiguração espacial e humana, impulsionada pela invasão portuguesa e sua organização baseada nas Capitanias Hereditárias. 

Daí surgiram as doações de terras por meio de forais de sesmarias, marco da violenta introdução do modelo europeu de propriedade privada sobre as terras de uso tradicionalmente coletivo dos indígenas. 

A chegada dos jesuítas à ilha adicionou uma camada de complexidade a esse cenário. De um lado estavam grandes sesmeiros, como a família do Governador-Geral D. Duarte da Costa, que consolidaram vastos latifúndios para a exploração agroexportadora, privatizando o território sob a lógica da exploração do trabalho escravizado. De outro, os jesuítas atuavam como agentes catequizadores e fiadores ideológicos do projeto colonial.

Foi nesse período que surgiu o povoado da Ponta da Cruz, a origem do município de Itaparica.

Séculos XVII e XVIII: o Arraial da Ponta da Baleia

No início do século XVII, a povoação da Ponta da Cruz passou por uma forte transformação econômica em razão da instalação de uma das mais importantes armações para a pesca de baleias. 

Devido à enorme expansão face à lucratividade dessa indústria, que dominou a economia da ilha ao longo dos séculos XVII e XVIII, o povoado cresceu e passou a ser conhecido como Arraial da Ponta das Baleias.

Povoado da Ponta da Cruz Arraial da Ponta das Baleias séc. XVII
A povoado da Ponta da Cruz passou a se chamar Arraial da Ponta das Baleias ainda no séc. XVII. Imagem construída por Inteligência Artificial

Sua posição estratégica, situada no extremo norte da Ilha de Itaparica, permitiu que também se tornasse um importante estaleiro naval, despertando a cobiça de corsários e da Companhia das Índias Ocidentais, o que culminou nas invasões holandesas a partir de 1624. 

Como resposta aos holandeses, foi construído o Forte de São Lourenço, que viria a se tornar um marco de resistência e bravura itaparicana ao longo dos dois séculos seguintes. 

A história de Itaparica também se pauta por lendas e tradições, como as que envolvem a famosa Fonte da Bica, citada pelo célebre historiador Ubaldo Osório e cantada nos versos coloniais do Frei Manoel de Santa Maria Itaparica. 

A fonte abastecia a antiga povoação da Ponta da Cruz e suas águas cristalinas representam a força da cultura local, especialmente em razão do apelo folclórico que até hoje a define como uma fonte da juventude.

Século XIX: batalhas pela Independência do Brasil na Bahia

O município de Itaparica, na Ilha de Itaparica, é um verdadeiro baluarte em se tratando das batalhas pela Independência do Brasil na Bahia. 

Entre 1822 e 1823, as tropas portuguesas comandadas pelo General Madeira de Melo tentaram furar o cerco ao qual estavam submetidas em Salvador e, como tinham grande poder naval, tentaram dominar a Baía de Todos os Santos em busca de abastecimento.

Maria Felipa dando surra de cansanção em soldado português batalha Independência da Bahia
Maria Felipa dando surra de cansanção em soldado português - Imagem construída por Inteligência Artificial

Nesse cenário, Itaparica se tornou o principal reduto da resistência naval libertadora, sendo o histórico Forte de São Lourenço crucial para repelir a esquadra lusitana na célebre Batalha de Itaparica, ocorrida entre os dias 7 e 9 de janeiro de 1823. 

O esforço militar foi heroicamente conduzido pelo tenente João Francisco de Oliveira, imortalizado como João das Botas. Sob sua liderança, marinheiros e ilhéus armaram uma frota de saveiros e canoas que enfrentou as poderosas embarcações portuguesas, controlando as águas e garantindo uma vantagem decisiva para as forças brasileiras. 

A vitória em Itaparica também ficou profundamente marcada pelo engajamento popular, cujas proezas heroicas têm como maior símbolo de bravura a marisqueira Maria Felipa de Oliveira, que liderou um grupo de mulheres negras e indígenas contra os marinheiros portugueses. 

Segundo a tradição local, elas surpreenderam e surraram os soldados inimigos com galhos de “cansanção” e incendiaram suas embarcações ancoradas na praia utilizando tochas. 

Bibliografia

AZEVEDO, Paulo Ormindo David de. IPAC-BA: Inventário de Proteção do Acervo Cultural da Bahia. Salvador: Secretaria da Indústria e Comércio e Turismo. v.2. Monumentos e Sítios do Recôncavo, 1975-2002. 7v.

ITAPARICA, Manuel de Santa Maria. Descrição da Ilha de Itaparica. In: BRAYNER, Sônia (Org.). A Poesia no Brasil 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981. p.48-62. 

OSÓRIO, Ubaldo. A Ilha de Itaparica: História e Tradição. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1979.

Como chegar em Itaparica

É bem simples chegar em Itaparica a partir de Salvador, havendo duas alternativas: a primeira é atravessando a Baía de Todos os Santos pelo ferry boat, e já em Bom Despacho, pegar um transporte até Itaparica. 

Na segunda, basta pegar a lancha no Terminal Turístico Náutico da Bahia, em Salvador, e quando chegar em Mar Grande, pegar uma condução para Itaparica.

O que fazer no município de Itaparica

Itaparica possui natureza dadivosa e um centro histórico magnífico, portanto, um passeio até lá merece contemplar ambos os temas. Confira agora suas principais atrações!

Centro histórico

O centro histórico de Itaparica é pequeno, começando no centro do município e finalizando na orla marítima.

Entardecer no Forte de São Lourenço em Itaparica
Entardecer no Forte de São Lourenço em Itaparica

Por isso, a escolha certa é caminhar pelas suas ruas e descortinar um a um os seus principais monumentos.

Forte de São Lourenço

O Forte de São Lourenço foi construído em 1647 pelos holandeses durante sua terceira invasão à Bahia. No século XVIII, foi reconstruído pelos portugueses, sendo esta a arquitetura atual. 

Em seu interior está o Memorial da Independência do Brasil na Bahia, que exibe armas da época e exposições sobre a bravura do povo itaparicano na luta contra as tropas portuguesas.

Igreja de São Lourenço

A Igreja de São Lourenço é a mais antiga de Itaparica, tendo sido construída no séc. XVI, como parte do engenho de Gabriel Soares de Sousa, autor do antigo livro “Tratado Descritivo do Brasil em 1587. 

Em 1822, a igreja foi profanada por homens de Madeira de Melo, situação que gerou revolta local e contribuiu para a organização da resistência armada que viria derrotar os portugueses na célebre batalha do dia 07 de janeiro de 1823.

Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento

A Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento é o mais imponente monumento histórico de Itaparica, tendo sido inaugurada em 1794. Ao se tornar matriz, o antigo arraial se tornou freguesia, razão pela qual a igreja é tão ricamente adornada. Ela possui decoração com elementos em rococó e neoclássico.

Fonte da Bica

No século XVI, a fonte foi manipulada pelos primeiros colonos portugueses, que ali instalaram bicas de bambu, sendo daí o seu nome Fonte da Bica

Em 1841, por iniciativa do Presidente da Câmara, Dr. Luiz Gonzaga da Luz, começaram as obras da atual fonte pelo mestre José Felipe do Nascimento, que terminaram em 6 de outubro do mesmo ano. 

A intervenção de 1841 substituiu esse sistema por uma estrutura em alvenaria e cantaria muito mais sólida e monumental. Essa obra não apenas organizou e higienizou o abastecimento de água potável para os moradores do arraial, mas também consolidou a fonte como um marco arquitetônico de Itaparica. 

Casarão Solar do Rei

O nome original do Casarão Solar do Rei é Sobrado Monsenhor Flaviano e sua arquitetura confere a transição do final do século XVIII para o início do século XIX. Ele ganhou notável relevância após hospedar o então Príncipe Regente D. João VI, em 1808, quando passou a ser chamado pela alcunha atual. 

Posteriormente, em 1859, também hospedou o Imperador D. Pedro II, que descansou no mesmo aposento do avô. 

O casarão também sediou a primeira Câmara Municipal de Itaparica em 1832. 

Sobrado Tenente Botas

O Sobrado Tenente Botas é uma das edificações históricas mais importantes de Itaparica, pois sua história vem desde os tempos imemoriais do Arraial da Ponta da Baleia. Há indícios de que ele tenha sido sede da antiga casa dos contratos de pesca de baleias. 

Posteriormente, se tornou propriedade e residência do herói da Independência, João Francisco de Oliveira, o João das Botas. Atualmente, a edificação foi requalificada e abriga o Centro Artesanal de Itaparica. 

Casa de João Ubaldo Ribeiro

A casa onde viveu o consagrado escritor baiano João Ubaldo Ribeiro é um dos pontos mais visitados em Itaparica. Ela está localizada na Praça da Quitanda e guarda a memória do autor. 

Vale ressaltar que João Ubaldo é neto do historiador Ubaldo Osório, ambos nascidos em Itaparica. Enquanto seu avô teceu pesquisas historiográficas que até hoje são a base do que se conhece sobre a história da Ilha, João Ubaldo se fundamentou nas pesquisas do avô e teve Itaparica como inspiração para seu livro épico Viva o Povo Brasileiro

Praça do Campo Formoso

Praça do Campo Formoso em Itaparica
Praça do Campo Formoso em Itaparica

A Praça do Campo Formoso é o epicentro simbólico e cívico das comemorações ligadas à Independência do Brasil na Bahia, cujo ápice é celebrado no 2 de Julho

Embora a expulsão do general Madeira de Melo e sua frota tenha ocorrido neste dia, a praça é o coração das festividades locais que comemoram o dia 7 de janeiro de 1823, data da Batalha de Itaparica.

É nesta praça que estão o panteão heróico e o monumento do Caboclo de Itaparica, figura que representa a bravura e a resistência popular nos festejos do 2 de Julho. 

Litoral do município de Itaparica

Orla de Itaparica

É o trecho entre a Prainha do Forte de São Lourenço e a bela Marina Itaparica. Oferece um belo calçadão com coqueiros, onde o mar cristalino oferece banhos memoráveis na maré cheia. 

Ao longo da orla encontram-se pousadas, restaurantes e sorveterias, sendo um ótimo lugar para passear e curtir o pôr do sol de Itaparica.

Praia do Forte de São Lourenço

A prainha fica em frente ao Forte de São Lourenço e é uma das melhores opções para famílias com crianças pequenas. Ali o mar é caribenho, realmente muito cristalino e de águas mansas. 

Somam-se a esta praia o início do calçadão da orla marítima de Itaparica e o Solar do Rei, onde funciona o ótimo Restaurante Tamarineiro, que serve tapiocas deliciosas, cuscuz, açaí e sorvetes.

Praia do Boulevard

A praia do Boulevard possui vasta faixa de areia na maré baixa, que proporciona diversas piscinas naturais excelentes para crianças. 

Ela acompanha a parte sul da orla marítima de Itaparica, sendo emoldurada por antigos casarões e grandes árvores que tornam o ambiente ainda mais bonito.

Praia do Brasileiro

Seguindo no sentido sul e já próximo da fronteira com o município de Vera Cruz está a linda Praia do Brasileiro, local onde está instalado o excelente Restaurante Manguezal. 

O espaço oferece piscina à beira-mar, lounge VIP, comida self service, e tudo isso de frente para o mar cristalino da Baía de Todos os Santos.

Praia da Ponta de Areia

Com cerca de 3,5 km de extensão, Ponta de Areia é a mais longa e a última praia de Itaparica, fazendo fronteira com o litoral do município de Vera Cruz.

Possui areia clarinha, mar calmo e cristalino, algumas barracas de praia e ótimas pousadas. Um lugar para passar o dia em família, degustando a excelente gastronomia baiana.

Mar caribenho na Coroa do Limo em Itaparica
Mar caribenho na Coroa do Limo em Itaparica

Coroa do Limo

A Coroa do Limo é um banco de areia localizado no meio do mar e em frente à Marina Itaparica durante a maré baixa. É um dos pontos de água mais cristalina da Baía de Todos os Santos e costuma deixar os visitantes de queixo caído. 

Não deixe de levar equipamento de mergulho e uma boa câmera à prova d'água, pois é um lugar mais que perfeito para produzir fotos subaquáticas inesquecíveis.

Ilha do Medo

A Ilha do Medo é pequena e pode ser avistada na orla de Itaparica. É possível contratar uma embarcação para visitá-la, o que certamente será um passeio extraordinário. 

A ilhota é paradisíaca, possui uma prainha de areia branca, vegetação preservada e o único vestígio de urbanização são as ruínas do antigo leprosário que funcionou no século XIX. 

Seu nome não é à toa, sendo a ilha cercada de histórias macabras que atravessaram séculos e assombram pescadores locais até os dias de hoje.

Agora que você já tem em mãos este guia completo sobre o município de Itaparica, conheça Mar Grande, o principal distrito do Município de Vera Cruz e ponto de chegada das lanchas que atravessam passageiros pela Baía de Todos os Santos a partir de Salvador.


Por Márcio Vasconcelos de O. Torres

Historiador e viajante - marciotorresbb@gmail.com


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