
Postado dia 23/06/26 | 4min. de leitura
Doce tijolo baiano: tradição doce na comunidade de Santana
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O Doce Tijolo Baiano é uma verdadeira atração turística que envolve gastronomia, cultura e história. Essa maravilha é um dos doces baianos mais apreciados da Chapada Diamantina e costuma atrair muitos turistas e escolas da região, que costumam ir até o Povoado de Santana, em Abaíra, para ver seu tradicional processo de produção.
Continue conosco e conheça a bela história por trás dessa iguaria, o curioso e artesanal processo de preparo e a linda família Evangelista, que está sempre de braços abertos para receber os visitantes com muito carinho!

História por trás do Doce Tijolo na Comunidade de Santana
A produção do Doce Tijolo na Comunidade de Santana resgata a memória da família do Seu João Evangelista, cuja ascendência chegou à região para a exploração do ouro a partir do início do séc. XVIII.
A cana-de-açúcar, que era a principal fonte de riqueza do Brasil Colônia e produzida no Recôncavo Baiano, chegou à região do garimpo com outros fins, o de produzir derivados como a cachaça e a rapadura.

Assim sendo, a família de Seu João Evangelista sempre esteve tradicionalmente ligada à moenda de cana-de-açúcar, popularmente denominada na região como "engenho". Uma trajetória cuja origem vem do tempo dos seus avós e evidencia as transformações técnicas, sociais e econômicas que moldaram a produção de doces e o modo de viver na localidade ao longo das gerações.
No passado, a subsistência e a economia locais giravam em torno da produção de rapadura, com um cenário marcado por grandes dificuldades logísticas e pela escassez de recursos, sendo a rapadura a única forma de adoçar comidas e bebidas.
E foi exatamente a produção de rapadura que gerou recursos financeiros para que a maioria das famílias do Povoado de Santana comprasse suas terras.
Ainda reportando aos tempos remotos, a produção acontecia apoiada na tração animal e no manejo artesanal, sendo que o transporte da cana-de-açúcar e o funcionamento das moendas dependiam diretamente de carros de boi e da força dos animais.
O maquinário antigo era composto por três moendas de madeira (central, grande e pequena) e engrenagens complexas, demandando um conhecimento sofisticado de carpintaria tradicional.

Seu João aprendeu o ofício da carpintaria desde cedo e se tornou um expert, passando a confeccionar as peças por meio de técnicas minuciosas. E logo veio a fase em que o “tijolo”, um doce de consistência mais macia desenvolvido inicialmente para o consumo doméstico, passou a ser produzido sob incentivo de amigos e consumidores que preferiam um produto mais fácil de mastigar que a rapadura.
O tijolo do Seu João passou a ser comercializado na feira de Abaíra, sendo transportado por meio de cavalos e burros. Com o tempo, a tradição chegou ao seu filho Carlos Evangelista que, juntamente com a esposa Lúcia, deu continuidade à produção da família e hoje são os responsáveis por fazer tijolo artesanal, só que agora, utilizando maquinários mais modernos.
Processo de produção do Doce Tijolo de Abaíra
O casal Carlos e Lúcia Evangelista acorda bem cedinho e às 3 horas da madrugada inicia o processo de preparo do Doce Tijolo.
Acompanhá-los foi uma experiência magnífica, especialmente pela simpatia, simplicidade e rico conhecimento que possuem sobre tudo o que envolve o Povoado de Santana. E claro, a companhia de pessoas que já considero amigos queridos!
A antiga moenda, repleta de engrenagens de madeira construídas pelo Seu João Evangelista, foi substituída por um espremedor elétrico de cana, produzindo mais rapidamente o caldo que escorre encanado pela força da gravidade até um reservatório dentro do pequeno barracão. Porém, a antiga moenda ainda está lá ao ar livre, como uma peça de museu para que todos possam contemplar.
Depois, o mesmo caldo é levado para o tacho de cobre, onde é fervido até o ponto de acrescentar 2 ingredientes fundamentais para a consistência e o sabor especial do Doce Tijolo: o “mamãozinho de veado” e o “coco ralado”.
O mamãozinho é a grande raiz de uma espécie de arbusto conhecido como “bananinha de veado”. Ele é cortado em pedaços, moído e colocado em um saco de linhagem, sendo posteriormente levado para uma prensa onde toda a sua água é escorrida.
A massa então é peneirada e o produto final é levado para os tachos alimentados em fogo à lenha, sendo o ingrediente responsável por sustentar o melaço e oferecer a consistência macia do doce, que ainda recebe coco ralado.
Lembrando que o caldo fervendo no tacho deve ser mexido o tempo todo com uma grande colher de pau, antes, durante e depois de inserir o mamãozinho e o coco. Uma atividade laboriosa e completamente artesanal que dura cerca de 5 horas.
Após chegar ao ponto, o doce é transportado para uma grande gamela, onde espera outro ponto certo para ser levado a uma forma comprida, para dar ao doce o formato de tijolo, literalmente.
A família Evangelista

Após acompanharmos o processo de produção do Doce Tijolo no Povoado de Santana, Carlos e Lúcia nos levaram para almoçar em sua casa, um gesto singelo de confiança e amizade. Depois visitamos a casa de D. Avany, a mãe de Carlos e esposa do Seu João.
Ainda tivemos a oportunidade de conhecer um quarto onde a tia de Carlos guarda documentos, fotos e artefatos antigos da família, um verdadeiro museu particular à espera de um pesquisador-historiador minucioso…

Momentos mágicos vivemos no Povoado de Santana, um lugar belíssimo situado aos pés da linda Serra de Santana e cortado pelo importante Rio de Contas, que, por sua vez, nasce na vizinha cidade de Piatã.
Sem nenhuma dúvida afirmo: uma simples visita para conhecer a produção do Doce Tijolo se tornou um dos momentos mais especiais que vivi em toda a Chapada Diamantina! Agradeço à família Evangelista por nos receber com tanto zelo!
Agora que você já conhece em detalhes o Doce Tijolo Baiano, a bela família Evangelista e o Povoado de Santana, em Abaíra, descubra agora 9 comidas típicas da Bahia que certamente tornarão sua viagem ao nosso estado ainda mais saborosa e inesquecível!
Por Márcio Vasconcelos de O. Torres
Historiador e viajante - marciotorresbb@gmail.com
