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Doce tijolo baiano: tradição doce na comunidade de Santana

Postado dia 23/06/26 | 4min. de leitura

Doce tijolo baiano: tradição doce na comunidade de Santana

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O Doce Tijolo Baiano é uma verdadeira atração turística que envolve gastronomia, cultura e história. Essa maravilha é um dos doces baianos mais apreciados da Chapada Diamantina e costuma atrair muitos turistas e escolas da região, que costumam ir até o Povoado de Santana, em Abaíra, para ver seu tradicional processo de produção.

Continue conosco e conheça a bela história por trás dessa iguaria, o curioso e artesanal processo de preparo e a linda família Evangelista, que está sempre de braços abertos para receber os visitantes com muito carinho!

Casal Carlos e Lúcia Evangelista doce tijolo baiano povoado de Santana Abaíra
Carlos e Lúcia Evangelista no barracão onde produzem o Doce Tijolo no Povoado de Santana

História por trás do Doce Tijolo na Comunidade de Santana

A produção do Doce Tijolo na Comunidade de Santana resgata a memória da família do Seu João Evangelista, cuja ascendência chegou à região para a exploração do ouro a partir do início do séc. XVIII. 

A cana-de-açúcar, que era a principal fonte de riqueza do Brasil Colônia e produzida no Recôncavo Baiano, chegou à região do garimpo com outros fins, o de produzir derivados como a cachaça e a rapadura.

Evangelistas na década de 1930 Povoado de Santana Abaíra
Evangelistas na década de 1930, Povoado de Santana - Abaíra

Assim sendo, a família de Seu João Evangelista sempre esteve tradicionalmente ligada à moenda de cana-de-açúcar, popularmente denominada na região como "engenho". Uma trajetória cuja origem vem do tempo dos seus avós e evidencia as transformações técnicas, sociais e econômicas que moldaram a produção de doces e o modo de viver na localidade ao longo das gerações.

No passado, a subsistência e a economia locais giravam em torno da produção de rapadura, com um cenário marcado por grandes dificuldades logísticas e pela escassez de recursos, sendo a rapadura a única forma de adoçar comidas e bebidas. 

E foi exatamente a produção de rapadura que gerou recursos financeiros para que a maioria das famílias do Povoado de Santana comprasse suas terras.

Ainda reportando aos tempos remotos, a produção acontecia apoiada na tração animal e no manejo artesanal, sendo que o transporte da cana-de-açúcar e o funcionamento das moendas dependiam diretamente de carros de boi e da força dos animais. 

O maquinário antigo era composto por três moendas de madeira (central, grande e pequena) e engrenagens complexas, demandando um conhecimento sofisticado de carpintaria tradicional. 

Engrenagem de antigo moedor de cana produzida por Seu João Evangelista
Engrenagem de antigo moedor de cana produzida por Seu João Evangelista

Seu João aprendeu o ofício da carpintaria desde cedo e se tornou um expert, passando a confeccionar as peças por meio de técnicas minuciosas. E logo veio a fase em que o “tijolo”, um doce de consistência mais macia desenvolvido inicialmente para o consumo doméstico, passou a ser produzido sob incentivo de amigos e consumidores que preferiam um produto mais fácil de mastigar que a rapadura. 

O tijolo do Seu João passou a ser comercializado na feira de Abaíra, sendo transportado por meio de cavalos e burros. Com o tempo, a tradição chegou ao seu filho Carlos Evangelista que, juntamente com a esposa Lúcia, deu continuidade à produção da família e hoje são os responsáveis por fazer tijolo artesanal, só que agora, utilizando maquinários mais modernos.

Processo de produção do Doce Tijolo de Abaíra

O casal Carlos e Lúcia Evangelista acorda bem cedinho e às 3 horas da madrugada inicia o processo de preparo do Doce Tijolo

Acompanhá-los foi uma experiência magnífica, especialmente pela simpatia, simplicidade e rico conhecimento que possuem sobre tudo o que envolve o Povoado de Santana. E claro, a companhia de pessoas que já considero amigos queridos!

A antiga moenda, repleta de engrenagens de madeira construídas pelo Seu João Evangelista, foi substituída por um espremedor elétrico de cana, produzindo mais rapidamente o caldo que escorre encanado pela força da gravidade até um reservatório dentro do pequeno barracão. Porém, a antiga moenda ainda está lá ao ar livre, como uma peça de museu para que todos possam contemplar.

Depois, o mesmo caldo é levado para o tacho de cobre, onde é fervido até o ponto de acrescentar 2 ingredientes fundamentais para a consistência e o sabor especial do Doce Tijolo: o “mamãozinho de veado” e o “coco ralado”. 

O mamãozinho é a grande raiz de uma espécie de arbusto conhecido como “bananinha de veado”. Ele é cortado em pedaços, moído e colocado em um saco de linhagem, sendo posteriormente levado para uma prensa onde toda a sua água é escorrida. 

A massa então é peneirada e o produto final é levado para os tachos alimentados em fogo à lenha, sendo o ingrediente responsável por sustentar o melaço e oferecer a consistência macia do doce, que ainda recebe coco ralado.

Lembrando que o caldo fervendo no tacho deve ser mexido o tempo todo com uma grande colher de pau, antes, durante e depois de inserir o mamãozinho e o coco. Uma atividade laboriosa e completamente artesanal que dura cerca de 5 horas. 

Após chegar ao ponto, o doce é transportado para uma grande gamela, onde espera outro ponto certo para ser levado a uma forma comprida, para dar ao doce o formato de tijolo, literalmente.

A família Evangelista

Almoço com o casal Carlos e Lúcia Evangelista Povoado de Santana
O momento especial do almoço com o casal Carlos e Lúcia Evangelista, no Povoado de Santana

Após acompanharmos o processo de produção do Doce Tijolo no Povoado de Santana, Carlos e Lúcia nos levaram para almoçar em sua casa, um gesto singelo de confiança e amizade. Depois visitamos a casa de D. Avany, a mãe de Carlos e esposa do Seu João. 

Ainda tivemos a oportunidade de conhecer um quarto onde a tia de Carlos guarda documentos, fotos e artefatos antigos da família, um verdadeiro museu particular à espera de um pesquisador-historiador minucioso… 

Museu particular família Evangelista Povoado de Santana Abaíra
Com Carlos e Dona Avany no museu particular da família Evangelista - Reprodução / Arq. pessoal Márcio Torres

Momentos mágicos vivemos no Povoado de Santana, um lugar belíssimo situado aos pés da linda Serra de Santana e cortado pelo importante Rio de Contas, que, por sua vez, nasce na vizinha cidade de Piatã.

Sem nenhuma dúvida afirmo: uma simples visita para conhecer a produção do Doce Tijolo se tornou um dos momentos mais especiais que vivi em toda a Chapada Diamantina! Agradeço à família Evangelista por nos receber com tanto zelo!

Agora que você já conhece em detalhes o Doce Tijolo Baiano, a bela família Evangelista e o Povoado de Santana, em Abaíra, descubra agora 9 comidas típicas da Bahia que certamente tornarão sua viagem ao nosso estado ainda mais saborosa e inesquecível!


Por Márcio Vasconcelos de O. Torres

Historiador e viajante - marciotorresbb@gmail.com


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