
Postado dia 19/06/26 | 10min. de leitura
Catolés: natureza e história na Chapada Diamantina
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O pequeno vilarejo de Catolés é um achado para quem o descobre e o visita pela primeira vez.
Situado ao sul da Chapada Diamantina e incrustado em um dos mais belos vales dessa imensa região, o lugar é pacato, pitoresco, histórico e cercado pelas mais altas montanhas do Nordeste, que revelam segredos ainda pouco conhecidos pelo turismo.
Certamente, Catolés é diferente de tudo o que você já conheceu, um lugar que respira tranquilidade, onde as pessoas de fala mansa e cantada te conquistam no primeiro olhar. Além disso, a vila é ponto de partida para aventuras incríveis, que levam a picos impressionantes, cachoeiras intocadas e mirantes de tirar o fôlego.
Continue conosco e desvende os mistérios dessa localidade fundada no séc. XVIII!

Catolés: história conectada à exploração do ouro na Bahia
O surgimento da vila de Catolés está diretamente ligado à descoberta de ouro na região de Piatã e Rio de Contas entre o fim do séc. XVII e o início do séc. XVIII.
O primeiro empreendimento foi impulsionado pela Coroa Portuguesa e pelos exploradores bandeirantes, que implantaram na região o modelo econômico extrativista baseado no trabalho escravizado e no enriquecimento rápido.
O povoado de Catolés foi criado a partir de um ponto de passagem, pouso e posterior fixação de garimpeiros atraídos pelas riquezas existentes nas inóspitas serras do Barbado e do Pico das Almas. Rapidamente as jazidas de ouro de fácil extração se esgotaram, deixando para trás o isolado território de Catolés entre a imensa cordilheira da Chapada.

Porém, a comunidade local reagiu ao isolamento, passando a viver da produção agrícola potencializada pelas terras férteis de um vale de altitude repleto de nascentes, rios e cachoeiras. Assim, o garimpeiro transformou-se em camponês e potencializou o cultivo do café e da cana-de-açúcar para a produção de cachaça em alambiques tradicionais.
O isolamento geográfico, que trouxe grandes dificuldades históricas para a comunidade, virou uma espécie de escudo protetor, contribuindo para a preservação de tradições seculares, rezas, folguedos como o Reisado, e um modo de vida profundamente comunitário.
A agricultura familiar de subsistência do passado foi se sofisticando com o tempo, e atualmente Catolés se destaca pelo café de altitude. Sua produção é amplamente premiada e reconhecida no mercado de cafés especiais, bem como na cidade vizinha de Piatã.
Bibliografia
AZEVEDO, Paulo Ormindo de. Inventário de Proteção do Acervo Cultural da Bahia - Monumentos e Sítios da Serra Geral e Diamantina. v. IV. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo, 1978.
CATHARINO, José Martins. Garimpo, garimpeiro, garimpagem. Rio de Janeiro: Philobiblion; Salvador: Fundação Econômica Miguel Calmon, 1986.
SANCHES, Nanci Patrícia Lima. Os livres pobres sem patrão nas Minas do Rio das Contas/BA – Século XIX (1830-1870). Dissertação de Mestrado em História – UFBA, 2008.
Como chegar em Catolés, Chapada Diamantina

Para evitar estradas de terra que podem oferecer dificuldades de tráfego, uma ótima alternativa é chegar em Catolés via Piatã. O percurso até a cidade mais fria do Nordeste, a partir de Salvador, dura aproximadamente 8 horas, possui 557 km e acontece pelas rodovias BR-324, BR-116, BA-046, BA-245 e BA-148.
De Piatã em diante, é preciso seguir pela rodovia BA-148 no sentido de Abaíra, e no entroncamento, entrar à esquerda, descendo a serra para Catolés, via a estrada de barro que vem sendo pavimentada em uma obra do Governo do Estado da Bahia. A viagem entre Piatã e Catolés dura cerca de 50 minutos e pode ser realizada por qualquer tipo de carro.
O que fazer em Catolés: 13 atividades incríveis
Prepare-se, pois este tópico está recheado de oportunidades históricas, culturais e, especialmente, aventuras por trilhas que levam a paisagens inacreditáveis! A própria vila de Catolés é muito charmosa e garante um passeio encantador, especialmente para os que se misturam entre os moradores e a cultura local.
É na vila que ficam o Monumento ao Garimpeiro e a antiga Igreja de N. Sra. do Bom Sucesso, que são paradas praticamente obrigatórias! Confira abaixo a lista com as principais atrações de Catolés, em Abaíra!
1. Monumento ao Garimpeiro

O Monumento ao Garimpeiro é o principal símbolo público da herança mineradora que deu origem à localidade no início do século XVIII.
Ele está situado no coração da vila, na famosa Praça João Hipólito Rodrigues, também conhecida como Praça do Garimpeiro em alusão ao monumento.
O local é um importante ponto de encontro da comunidade e visitantes, excelente para uma boa prosa com os moradores após um dia inteiro de trilhas e cachoeiras.
2. Igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso
A Igreja de N. Sra. do Bom Sucesso foi construída em 1775 em local onde passava uma estrada que conectava os dois polos auríferos, Rio de Contas e Jacobina. A vila foi se constituindo ao seu redor, sendo a igreja, portanto, marco zero de Catolés e também de todo o município de Abaíra.

A igreja está localizada na rua principal, fazendo esquina com um beco. Foi arquitetada sobre local acidentado, em razão de a vila estar situada na encosta de um morro. É um edifício de relevante interesse arquitetônico, apresentando nave, capela-mor, duas sacristias e um corredor lateral, construído nos fins do século passado.
Seu altar-mor primitivo foi substituído por outro, deste século, porém ainda existe um altar original, o do cruzeiro. Dentre as oito imagens de madeira existentes, destacam-se: N. Sra. do Bom Sucesso e N. Sra. do Rosário.
Na data da publicação deste artigo, a igreja encontra-se fechada para obra de restauro liderada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
3. Catolés de Cima e seu mirante

Catolés de Cima é como uma extensão de Catolés, sendo seus moradores todos parentes entre si. Ele é o ponto de partida para quem vai subir o Pico do Barbado via Catolés, e no ponto mais alto do povoado existe um mirante bem estruturado de onde se tem uma visão em 360º, uma das mais impressionantes de toda a Chapada Diamantina.
Um cenário completo que permite visualizar de maneira frontal o incrível Morro do Cuscuz, o Pico do Altino e a Serra do Guarda-mor, sendo que é nesta última onde estão as principais atrações da região. Outro destaque é a visão completa do vale onde Catolés se encontra, um lugar realmente espetacular!
4. Cachoeira da Saia

A Cachoeira da Saia fica quase no topo da Serra do Guarda-mor e é a primeira de uma sequência de cachoeiras banhadas pelo Rio Guarda-mor.
Ela pode ser considerada uma das cachoeiras mais altas de toda a Chapada, estando a cerca de quase 1500 metros de altitude.
Chegar até ela é mágico e transmite uma sensação única até mesmo para os aventureiros experientes em termos de Cordilheira dos Andes.
A começar pela linda trilha de ascensão, que revela mirantes espetaculares e formações rochosas dignas da famosa série Jornada nas Estrelas.
Para quem vai arriscar um banho, é bom levar roupa seca e quentinha para usar depois, já que dependendo da época do ano, a temperatura costuma cair, chegando a cerca de 6º C.
Para ter um panorama geral do lugar, é preciso tirar completamente os cenários do Parque Nacional da Chapada Diamantina da mente, pois o que se apresenta ali é completamente diferente.
5. Cachoeira do Guarda-mor

A Cachoeira do Guarda-mor fica abaixo da Cachoeira da Saia e é um salto na sequência do curso do mesmo rio. Ela possui cerca de 12 metros de queda, oferece um poço para banho e paisagem selvagem.
O acesso até ela é um dos mais fáceis, lembrando que a Serra do Guarda-mor, onde ela está inserida, possui muitas estradinhas de barro que podem ser percorridas por carros altos até quase o topo.
Por isso, dá para chegar de carro bem pertinho dela, restando apenas uma curta caminhada de 5 minutos. É uma das preferidas pelas famílias, especialmente no verão, quando a temperatura sobe e o banho fica bem mais agradável.
6. Cachoeira da Samambaia
Ainda parte do Rio Guarda-mor e mais abaixo da Cachoeira do Guarda-mor estão os dois saltos da Cachoeira da Samambaia. O acesso até ela se dá de baixo para cima, sendo preciso chegar primeiramente à queda inferior por meio de uma trilha com cerca de 1,7 km.
O local requer uma atenção especial para os que levam crianças, já que esse ponto da cachoeira possui pedras escorregadias nas bordas, ângulo enladeirado e muito acidentado.
Subindo devagar pela borda direita e seguindo pelo leito do rio, se chega à queda superior, que a princípio se mostra pequenina. Porém, bem próximo dela é possível perceber que a cachoeira mergulha em um buraco, ganhando muito em altura e beleza. Outra vantagem dessa queda é o poço, que permite banhos deliciosos na água geladíssima da região.
7. Cachoeira Subterrânea
A Cachoeira Subterrânea é um verdadeiro encanto da natureza. Ela faz parte de uma malha de grutas e cavernas abaixo do leito, onde as águas de alguns afluentes do Rio de Contas mergulham e percorrem de forma submersa.
Porém, como quase todas as cachoeiras da Chapada, é uma em dias de sol e volume equilibrado de água, e outra quando chove muito, quando o local se transforma em um grande desafio.
Nossa experiência lá não foi paradisíaca como a maior parte das imagens que vemos publicadas nas redes sociais, e se tornou um grande desafio psicológico.
Em geral, pessoas claustrofóbicas devem ficar longe dessa atração, pois para chegar até ela, é preciso, após uma trilha saltando pedras por leito de rio, entrar em um buraco minúsculo entre as rochas. Além disso, sua fenda interna é estreita e possui pouco mais de um metro de largura.
Ademais, é um lugar muito especial, capaz de elevar os níveis de sensibilidade e emoção à flor da pele!
8. Morro do Cuscuz

O Morro do Cuscuz possui este nome em razão de uma antiga lenda do tempo do garimpo. O povo conta que, durante explorações de ouro, aconteceu um grande desabamento que soterrou diversos garimpeiros. A questão é que a parte que deslizou era como ¼ de cuscuz, ficando o morro como um cuscuz faltando um pedaço.
Ele é um símbolo de Catolés e oferece diversos cenários incríveis que se apresentam à medida que se muda de lugar no vilarejo.
Outra vantagem é que tem estrada de terra até o pé dele, um passeio imperdível para toda a família! Para os aventureiros mais preparados fisicamente, é possível realizar uma trilha de ascensão ao cume, de onde se descortinam paisagens ainda mais incríveis.
9. Lapa do Odilon

É mais uma atração exótica da Serra do Guarda-mor, uma formação rochosa única que muito lembra cenários de outros planetas.
A trilha até lá é curta, porém vertical, e requer bom preparo físico. Também oferece ângulos incríveis de todo o vale, do Morro do Cuscuz, do Pico do Altino e incríveis cenários rochosos esculpidos pela ação do tempo.
Lembrando que é possível chegar de carro até o ponto de partida da trilha, uma subida por estradas vicinais na forma de caracóis que também acessam as moradias mais altas de Catolés.
10. Pedra do Chapéu

A Pedra do Chapéu é um monumento natural que desafia a física e encanta os visitantes.
Ela está perfeitamente equilibrada sobre uma outra rocha como um chapéu, permitindo muitos questionamentos e deduções sobre como foi parar ali.
O monumento está entre a Lapa do Odilon e a Cachoeira da Saia, sendo possível acessar todos eles em uma mesma trilha que percorre as mais belas paisagens da Serra do Guarda-mor.
11. Pico do Barbado
O que dizer deste que é o pico mais alto do Nordeste do Brasil, no alto dos seus 2.033 metros de altitude? Por mais que você leia diversas descrições e experiências alheias como esta, não tem como entender sua magnitude sem ir até o seu cume pessoalmente.

O Pico do Barbado está situado na região onde estão as cidades de Piatã, Abaíra, Rio de Contas, Érico Cardoso e Rio do Pires, mas suas duas principais trilhas partem de Catolés (Abaíra) e Rio de Contas. Agora, se você me perguntar qual delas é a mais bonita, direi que faça as duas, pois oferecem cenários distintos que se completam.
A maioria das pessoas que sobem ao topo do Pico do Barbado o fazem de forma bate e volta. A vantagem de assim proceder é que você subirá mais leve, sem tantos equipamentos e comida como os que vão até lá para pernoitar.
Porém, perderá os instantes mais sublimes da natureza, como o entardecer, a noite fria e estrelada e o amanhecer. Momentos que, certamente, lhe proporcionarão memórias únicas e de grande êxtase!
12. Pico do Altino
O Pico do Altino (1.918m) é o mais baixo entre os 9 gigantes do Nordeste, mas ir até o seu cume não é tarefa fácil, especialmente para os que se aventuram a subir pelo perigoso e vertical Rolling Stones.
A ascensão ali exige ótimo preparo físico, navegação técnica em razão da vegetação alta e muita atenção.
Por outro lado, possibilita vistas das mais altas serras da Bahia e do vale onde estão os povoados de Catolés e Catolés de Cima. Tanto o Pico do Altino como o Pico do Barbado fazem parte da mega travessia conhecida como Gigantes do Nordeste.
13. Travessia Gigantes do Nordeste

Já imaginou uma trilha de 7 dias e 6 noites percorrendo as montanhas mais altas do Nordeste do Brasil?
Pois bem, a Travessia Gigantes do Nordeste pode ser considerada uma das mais sensacionais do Brasil, e não apenas pode levar ao cume dos 9 mais altos picos do Nordeste, sendo todos eles situados na mesma região. Mas pela grande variedade de cenários do percurso e por ser uma longa aventura que possibilita um mergulho na natureza inóspita baiana.
Ou seja, realizá-la requer grande esforço, preparação física e psicológica, todavia permite uma vivência única com experiências genuínas e imersivas.
Dizem que você entra uma pessoa na travessia e quando sai, é outra, literalmente!
Confira abaixo o roteiro realizado pelo Guia Laércio “Du” a partir de Catolés:
1º dia: partindo de Rio de Contas, subindo o Pico das Almas e acampando no Vale do Queiroz.
2º dia: caminhada até Brumadinho, com transporte de carro até Caiambola, com subida e acampamento no cume do Pico Itobira.
3º dia: caminhada do Pico do Itobira para o cume do Pico do Altino, com acampamento em sua base.
4º dia: três picos no mesmo dia: Covoão, Escorrido e acampamento no cume do Pico dos Cristais.
5º dia: subida ao Pico das Prateleiras, com Cachoeira dos Frios e acampamento no Vale dos Frios.
6º dia: ataque ao cume do Pico da Lapa Grande, com acampamento novamente no Vale dos Frios.
7º dia: caminhada passando pelos cumes dos picos do Barbado e do Elefante, chegando em Catolés ao final do dia.
Guia profissional em Catolés

Nascido e criado em Catolés e nas montanhas da região, o guia Laércio “Du” é o cara certo para todos os tipos de expedições, seja guiando famílias por trilhas tranquilas, ou realizando os caminhos mais duros da região, como ascensões a picos como o Barbado, o Altino e a Travessia Gigantes do Nordeste.
Com uma personalidade serena, Du é muito boa praça, uma pessoa educada e de natureza gentil, mas que também expressa grande firmeza e força de caráter em situações de decisões difíceis.
Guia Laércio “Du” (77) 98124-6637 (@du_guia_turistico).
Visto que você chegou até aqui e certamente se encantou com a possibilidade de viajar para Catolés, conheça também a cidade de Abaíra e todas as maravilhosas possibilidades da região, para que sua viagem seja ainda mais completa e inesquecível!
Por Márcio Vasconcelos de O. Torres
Historiador e viajante - marciotorresbb@gmail.com






