
Postado dia 27/10/26 | 10min. de leitura
História da cidade de Salvador: origem e transformações
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Para compreender a história da cidade de Salvador, é preciso ir além dos cartões-postais e mergulhar nas contradições sociais e econômicas que forjaram a primeira capital do Brasil.
Mais do que focar em monumentos históricos, datas oficiais e “grandes” nomes da história de Salvador, é preciso entender como as relações de trabalho, a concentração de riquezas e as tensões constantes entre diferentes grupos sociais moldaram, século após século, não apenas a arquitetura e a divisão do espaço urbano, mas a própria essência e a resistência do povo soteropolitano.
Este artigo propõe uma viagem no tempo, observando a evolução da cidade a partir de suas bases materiais e pretendendo proporcionar uma fundamentação mais profunda aos turistas. Assim, também é um ótimo guia para quem busca o que fazer na capital baiana, orientando monumentos que ilustram a historiografia da cidade.

História da cidade de Salvador, Bahia: resumo dos principais marcos
Século XVI: Gênese colonial, primeiras contradições e fundação da cidade do Salvador
Muito antes da chegada da frota portuguesa, o território de Salvador e da Baía de Todos os Santos era dominado pelos Tupinambás. A estrutura social indígena, baseada na coletividade e na subsistência, sofreu o primeiro choque com o mercantilismo europeu a partir do náufrago Diogo Álvares, o Caramuru.
Sua união com a tupinambá Guaibimpará (posteriormente batizada como Catarina Paraguaçu) foi muito além da narrativa romântica construída pela historiografia oficial; foi a primeira aliança estratégica e de miscigenação que facilitou a penetração lusitana e a extração inicial de pau-brasil, iniciando o processo de desestruturação do modo de vida nativo.
A tentativa da Coroa de terceirizar a colonização resultou na Capitania Hereditária da Baía de Todos os Santos, entregue ao donatário Francisco Pereira Coutinho. O modelo fracassou na Bahia, engolido pela resistência ferrenha dos Tupinambás, que se recusaram a ser subjugados pelo trabalho compulsório.

Com a morte de Coutinho imposta pelos indígenas, a Coroa portuguesa decidiu assumir o controle direto para proteger seus interesses econômicos e geopolíticos. Assim, em 1549, Tomé de Sousa chegou para instituir o primeiro Governo Geral do Brasil.
Portanto, quem fundou a cidade de Salvador foi a Coroa, um projeto militar e administrativo do Estado absolutista português para centralizar a exploração da colônia.
A cidade foi erguida como uma praça-forte, com muralhas de taipa, dividindo-se fisicamente desde o princípio: a classe dominante burocrática e clerical na Cidade Alta (o poder político e religioso) e as atividades portuárias na Cidade Baixa (a circulação de mercadorias).
Nesse contexto, os Jesuítas, liderados por Manuel da Nóbrega, exerceram o papel ideológico fundamental. A construção das primeiras igrejas e a formação dos aldeamentos não visavam apenas a salvação das almas, mas o disciplinamento da força de trabalho indígena e a legitimação espiritual da conquista.
A atual Igreja de São Tomé de Paripe, por exemplo, é a reconstrução de uma primitiva ermida jesuíta erguida pelos Tupinambás em 1552.

A base material dessa sociedade rapidamente se estruturou nos engenhos de açúcar do Recôncavo Baiano e do subúrbio soteropolitano. A Igreja de Nossa Senhora da Escada, atualmente situada no alto do bairro de Plataforma, fez parte de um dos primeiros engenhos da cidade. O açúcar exigia vastos latifúndios e mão de obra intensiva.
Quando a escravização indígena se mostrou insuficiente devido a fugas, mortes por doenças e oposição da Igreja, o sistema transitou para o tráfico transatlântico de africanos escravizados, institucionalizando uma sociedade de classes brutalmente desigual, em que o homem negro foi reduzido à mercadoria.
Personificando a acumulação primitiva de capital e terras, destaca-se Garcia d'Ávila. Chegando com Tomé de Sousa como feitor e almoxarife da Cidade do Salvador e da Alfândega, d'Ávila forjou um império pecuarista e latifundiário.
O início do morgado da Casa da Torre no Litoral Norte garantiu o monopólio do fornecimento de carne e tração animal para os engenhos, demonstrando como a apropriação privada de terras públicas foi a base para o surgimento das oligarquias seculares da Bahia.
A origem do nome da cidade de Salvador une fortes referências religiosas e geográficas da Coroa portuguesa, sendo uma dupla homenagem cristã e histórica: São Salvador da Bahia de Todos os Santos.
O termo "São Salvador" dedica a cidade-fortaleza a Jesus Cristo, enquanto "Bahia de Todos os Santos" refere-se ao acidente geográfico assim batizado por navegadores portugueses que ali chegaram em 1º de novembro de 1501, data em que o calendário católico celebra o Dia de Todos os Santos.
Século XVII: Açúcar e tabuleiro imperialista na história de Salvador
O século XVII viu Salvador se consolidar como o principal porto do Atlântico Sul, mas sua riqueza gerou cobiça.
O motor da economia continuava sendo a monocultura açucareira, sustentada pelo trabalho escravizado africano. A riqueza dos senhores de engenho crescia na mesma proporção em que a miséria e a desumanização das massas escravizadas se aprofundavam.

O monopólio ibérico do açúcar sofreu seu maior revés com as Invasões Holandesas (1624-1625). A Companhia Holandesa das Índias Ocidentais não invadiu Salvador po yb777br questões religiosas, mas para assumir o controle dos meios de produção (os engenhos) e da logística do açúcar. A capital foi sitiada, ocupada e posteriormente retomada na Jornada dos Vassalos, também conhecida como Restauração da Bahia.
A transformação física da cidade foi evidente: Salvador foi cercada por um formidável anel de fortificações militares, como o Forte de Santa Maria e o Forte São Diogo, que foram construídos para auxiliar o Forte de Santo Antônio da Barra na proteção do capital mercantil.
Socialmente, a cidade inflou. A Cidade Alta expandiu suas fronteiras além das muralhas originais de Tomé de Sousa, surgindo conventos monumentais financiados por irmandades ricas e senhores de terra.
Ao mesmo tempo, a resistência escrava se materializou de forma aguda, com o aumento das fugas e a consolidação das rotas de quilombos na periferia urbana e no Recôncavo.
Século XVIII: Apogeu do ouro, decadência e lutas sociais
O século XVIII marcou o ápice da arquitetura barroca em Salvador. As igrejas forradas de ouro, como a de São Francisco, e os majestosos casarões do Pelourinho não eram apenas locais de culto ou residência; eram a ostentação material da acumulação de riquezas advindas do açúcar, do fumo, do tráfico negreiro e da tributação do ouro vindo de cidades baianas como Jacobina, Rio de Contas, e também das Minas Gerais.

Contudo, a lógica do capital ditou o declínio político da cidade. Com o eixo econômico deslocado para a mineração no Sudeste, a Coroa transferiu a capital para o Rio de Janeiro em 1763.
A partir desse momento, Salvador sofreu um esvaziamento administrativo, aprofundando sua crise econômica e aguçando as tensões sociais. A inflação, a fome e o desemprego atingiram duramente a classe trabalhadora urbana, formada por soldados, artesãos, escravizados de ganho e forros.
Essa contradição explodiu na Revolta dos Búzios (Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates) de 1798. Diferente da Inconfidência Mineira, que teve caráter elitista, a revolta baiana foi o primeiro movimento de massa no Brasil a exigir independência, República e, principalmente, a abolição da escravatura.
A repressão estatal foi implacável contra as classes populares: os líderes negros João de Deus, Manuel Faustino e os soldados Lucas Dantas e Luiz Gonzaga das Virgens foram enforcados e esquartejados na Praça da Piedade, local que hoje abriga seus bustos como mártires e símbolo da luta por justiça social.
Século XIX: Independência, industrialização periférica e segregação pós-abolição
A passagem para o século XIX foi turbulenta. O 7 de setembro de 1822 teve pouco impacto prático na Bahia, que continuou ocupada por tropas portuguesas. A verdadeira independência física e política ocorreu por meio de uma sangrenta guerra popular, culminando na famosa data de 2 de Julho de 1823.
Indígenas, negros e sertanejos — simbolizados pelas figuras do Caboclo e da Cabocla, e por heroínas como Maria Quitéria, Maria Felipa e a abadessa Joana Angélica — lutaram para expulsar o poder colonial. No entanto, a vitória militar não alterou as estruturas de poder, o que preservou os privilégios da classe dominante escravocrata.

Na segunda metade do século, a Revolução Industrial chegou a Salvador de forma periférica. No Subúrbio Ferroviário, a paisagem se transformou com a implantação da ferrovia e de complexos têxteis, como a Fábrica São Brás, fundada em 1875. Essa fábrica, que em uma década já possuía 340 operários, simboliza a formação da nascente classe operária soteropolitana, marcando a transição lenta e dolorosa do trabalho escravo para o assalariado.
A abolição da escravatura em 1888 ocorreu sem qualquer política de integração social ou acesso à terra. A população negra foi massivamente empurrada para os primeiros cortiços e periferias, assentando as bases da desigualdade espacial profunda que define a Salvador contemporânea.
Século XX: Metrópole excludente e luta pelo espaço urbano

No século XX, Salvador passou por uma "modernização conservadora". Inspirada nas reformas parisienses, a classe política, liderada pelo governador J.J. Seabra impôs reformas urbanas agressivas.
A abertura da Avenida Sete de Setembro (1912) rasgou o centro histórico, demolindo casarios coloniais e templos, como a antiga Igreja de São Pedro, sob a justificativa de trazer o "progresso" e o higienismo.
Na prática, essa política desapropriou habitações populares e empurrou os mais pobres ainda mais para longe do centro de decisões.
O avanço da indústria e do ciclo do petróleo, com a implantação da Refinaria Landulpho Alves no Recôncavo, causou um êxodo rural massivo. Sem planejamento habitacional do Estado, a classe trabalhadora ocupou encostas e vales, consolidando o Subúrbio Ferroviário e bairros como Cajazeiras e a Península de Itapagipe.

A cidade se fragmentou definitivamente, com a orla atlântica recebendo pesados investimentos estatais para abrigar as classes dominantes, enquanto a infraestrutura era negada à "cidade informal".
Paralelamente, o século XX marcou a ascensão de uma resistência cultural vital. O que antes era criminalizado pelo aparato estatal burguês — o Candomblé, a Capoeira, o Samba de Roda — passou a ser reafirmado, moldando a verdadeira identidade soteropolitana, ainda que muitas vezes sofresse um processo de fetichização comercial.
Essa revalorização das manifestações populares preparou o terreno para novos movimentos artísticos, como o Tropicalismo. Além disso, impulsionou o surgimento de blocos afro, a exemplo do Ilê Aiyê, que passaram a utilizar a cultura como uma poderosa ferramenta de afirmação política e racial.
Século XXI: turismo, emburguesamento e tesouros esquecidos
Hoje, Salvador enfrenta as contradições do capitalismo tardio, intensificadas pela indústria do turismo. O Centro Histórico, revitalizado nos anos 1990, sofreu um processo clássico de emburguesamento.
A população de baixa renda foi removida das ruas do Pelourinho para dar lugar a um cenário pasteurizado destinado ao consumo turístico, esvaziando a região de sua dinâmica social orgânica e transformando a cultura negra em produto comercial.
No entanto, onde há opressão, há resistência. O Subúrbio de Salvador, historicamente marginalizado, resgata hoje seu protagonismo e sua narrativa.

Espaços como o Acervo da Laje, em São João do Cabrito, subvertem a lógica colonial dos museus tradicionais. Esse espaço cultural prima pela educação, valorizando a arte popular e a memória de um território vibrante que se recusa a ser definido apenas pela escassez.
Visitar tesouros como as ruínas da Fábrica São Brás ou a secular Igreja de Nossa Senhora do Ó em Paripe é um ato de reconhecer as camadas profundas da história soteropolitana. A Salvador do século XXI é uma metrópole dividida entre a especulação imobiliária da sua orla elitizada e a criatividade pulsante de suas periferias.
A história de Salvador não é apenas uma narrativa de conquistadores e governadores descritos em placas de bronze. É a crônica viva da luta pelo direito à cidade, pela igualdade racial e pela dignidade humana, uma história escrita, construída e mantida, fundamentalmente, pelas mãos de sua classe trabalhadora e do seu povo.
Compreender a fundo a história da cidade de Salvador exige mais do que a leitura de seus processos sociais e econômicos; exige vivenciar os espaços onde essa trajetória de lutas e transformações se materializou. Portanto, não fique apenas na teoria: caminhe por essas ruas, observe as contradições arquitetônicas e sinta a força viva desse patrimônio.
Para tanto, conheça 12 monumentos históricos da cidade que narram, em suas pedras, arquitetura e localização, a grandeza e a resistência secular da primeira capital do Brasil!
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Por Márcio Vasconcelos de O. Torres
Historiador e viajante - marciotorresbb@gmail.com
